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O tema das relações de gênero, sexualidade e instintividade constitui uma das principais questões inerentes à existência humana, envolvendo aspectos psicológicos, físicos e sociais que se estabelecem como campo de investigação artística, estética e conceitual. Se por um lado, da fusão dos corpos nasce a vida, sendo esta a semente germinal para o desenvolvimento da humanidade; por outro, da sexualidade emergem questões intrigantes, tais como a relação entre feminino e masculino, repressão ou liberação social dos instintos sexuais, entre outras. Nesse sentido, a exposição Ponto de Fusão se propõe a encarar o tema de maneira abrangente, considerando diferentes formas de expressão da sexualidade e erotismo em objetos artísticos e culturais.

 

A cultura visual contemporânea nos faz abrir o leque de pontos de fusão entre os sexos. E esse foco ampliado de possibilidades, combinações e dicotomias nos leva a revisitar o tema numa perspectiva histórica. Em que contextos da cultura e da história da arte ocidental o binômio feminino e masculino se coloca como foco de interesse e qual a natureza do diálogo que surge com mais força em cada momento: a origem da vida, o erotismo, a relação amorosa, a composição familiar, a ambiguidade e a ambivalência sexual, o preconceito moral ou as identidades de gênero? 

Como a arte se relaciona com as mentalidades de cada época traduzindo, interpretando, reinventando, questionando e deslocando significados? 

 

A partir dessa perspectiva, mas não em busca de respostas, a narrativa da exposição se divide em três vieses que se afastam entre si no tempo e no espaço geográfico, mas que se aproximam na subjetividade do olhar: 

• A origem do homem: o mito grego.

• Corpo e sexualidade no horizonte do mundo moderno.

• Feminino e masculino na arte contemporânea brasileira. 

proposta

Projeto de curadoria e concepção espacial de exposição, abordando a questões de gênero e sexualidade na arte contemporânea brasileira. 

 

Bianca Lupo, Fábio Luccheti, Lívia Mantovani, Lygia Rodrigues, Maíra Machado, Márcio Filho.

 

Maio 2016.

seção a. origem do homem . o mito grego

 

A mitologia pode ser tomada como uma primitiva moldagem da experiência humana em imagens vívidas, nas quais pensamento e ação não se separam. Imagens essas que assumem a função de arquétipos, 

ou seja: parâmetros comportamentais, muitas vezes embasadores de práticas religiosas e de normas sociais. O grau de influência da mitologia nas sociedades tem uma síntese precisa na frase de abertura do poema “Ulysses”, de Fernando Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”.

 

Dentre as muitas mitologias da antiguidade, a grega foi a que mais influenciou o pensamento ocidental, uma vez que seus arquétipos chegaram até nós por meio de manifestações literárias, musicais, teatrais, arquitetônicas, pictóricas e escultóricas, as quais – ao longo da História e ainda hoje – servem de referência à produção cultural. 

 

Toda a linhagem dos deuses olímpicos, além das divindades menores e dos seres mitológicos, refletem, em última análise, as forças da Natureza associadas às experiências externas e internas do ser humano. A sexualidade, evidentemente, tem particular relevo na mitologia grega, já que os arquétipos – colocados em termos de unidade, divisão, contraste e fusão do masculino e do feminino – se aperfeiçoam nas figuras dos deuses, semideuses, seres fantásticos, heróis e heroínas gregos.

 

 

Nesse cenário, apresentam-se, além da elaboração arquetípica do masculino versus feminino com papéis sexuais delimitados, dois exemplos de dualidade sexual, que, no curso da História ocidental, serviram de inspiração a obras de arte. Num deles, dá-se a coexistência dos dois sexos no mesmo indivíduo: trata-se de Hermafrodito, fruto do encontro clandestino e furtivo entre Hermes (o mensageiro dos deuses) e Afrodite (deusa do amor, da beleza e da sexualidade). A tradição apresenta-o como um adolescente extremamente belo, ao qual a ninfa Salmacis se integrou fisicamente, por intercessão dos deuses, após ver repelidas suas investidas apaixonadas ao jovem. 

Hermafrodito representa a fusão corporal dos dois sexos, o ser andrógino, sem gênero definido. Apresentamos dois exemplos de representações artísticas desse mito.

obras

1. Hermafrodito Adormecido - autor desconhecido (século II d.C.)

Escultura em mármore

60 x 169 x 89 cm

Museu do Louvre, Paris, França

Fonte: www.louvre.fr, acesso em 02.06.16

2. A Metamorfose de Hermafrodito e Salmacis (1520) - Jan Gossaert (Maubeuge, 1478 - Antuérpia, 1532)

Óleo sobre madeira

32,8 x 21,5 cm

Museu Boijmans Van Beuningen

Roterdã, Holanda

Fonte: www.boijmans.nl, acesso em 02.06.16

3. Tirésias se Metamorfoseando em Mulher (1675 - 1678) - Pietro della Vecchia (Nápoles, 1598 - Roma, 1680)

Óleo sobre tela

107 X 1.142 cm

Museu de Belas Artes

Nantes, França

Fonte: www.museedesbeauxarts.nantes.fr, acesso em 02.06.16.

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4. Namoradas (Serpentes Aquáticas) (1904-1907) - Gustav Klimt (Viena, 1862 - 1918)

Técnica mista: ouro sobre veludo

50 x 20 cm

Palácio do Belvedere

Viena, Áustria

Fonte: www.belvedere.at, acesso em 02.06.16

5. O Abraço (1917) - Egon Schiele (Thull an der Donau, 1890 - Viena, 1918)

Óleo sobre tela

169 X 98 cm

Palácio do Belvedere

Viena, Áustria

Fonte: www.belvedere.at, acesso em 02.06.16

6. Amor Rejeitado (1966) - Oskar Kokoschka (Pöchlarn, 1886 - Montreux, 1980)

Óleo sobre Tela

164 x 113 cm

Palácio de Belvedere, Viena, Áustria

Fonte: www.belvedere.at, acesso em 02.06.16

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seção B. corpo e sexualidade no horizonte do mundo moderno

 

O fim do século XIX foi marcado por uma revisão profunda do papel da sexualidade, fundamentado teoricamente pela investigação freudiana sobre a dinâmica universal da psique individual, identificando o embate entre a racionalidade civilizatória e os instintos e desejos reprimidos. Na gênese da psicanálise, encontra-se o contraponto entre Londres, 

representante da ordem e da racionalidade liberais, e Paris, a cidade dos perigos e do irracional. Roma, por sua vez, emerge como exemplo tanto do poderio masculino do Império Romano e da Igreja Católica, quanto da maternidade e acolhimento da Santa Igreja a seus fiéis. Pode ser interpretada, desta maneira, como a cidade “[...] onde homem e 

mulher, ética e estética – em resumo, o mundo do ego de Londres e do id de Paris – convergiam em desconcertante fusão. (SCHORSKE, 2000, p. 224). 

 

Se sob a Roma católica se escondia a Roma clássica e, por sua vez, a cultura clássica constituía os alicerces da tradição austríaca (sendo Viena o cenário principal dos estudos de Sigmund Freud sobre a psicanálise), pode-se compreender a retomada da antiguidade clássica para a estruturação da teoria freudiana acerca das relações entre sociedade, sexualidade e instintividade. 

 

O círculo que se formava em Viena na virada para o século XX – composto por Sigmund Freud, Otto Wagner, Richard Wagner e pintores como Gustav Klimt, Egon Schiele, entre outros – colocava em primeiro plano a sensualidade, a erotização e a feminilidade, conforme o trecho: “neste período, a atenção é colocada exclusivamente no erotismo: não há objeto ereto que Freud não interprete como símbolo fálico nem abertura que ele não relacione à penetração sexual” (NERET, 2001, p. 7).  Nesse sentido, a produção artística de Gustav Klimt (1862-1918), Egon Schiele (1890-1918) e Oskar Kokoschka (1886-1980), demonstra claramente o espírito da época, ao apresentar mulheres ameaçadoras e sedutoras, explorando o poder do instinto na sexualidade. Diante desse contexto, as obras “Serpentes Aquáticas” (1904-07), de Klimt, “O Abraço” (1917), de Schiele e "Amor Rejeitado" (1966), de Kokoschka, apresentam-se como exemplares da investigação sobre aspectos de erotização e sensualidade. 


 

 

Seção C. feminino e masculino na arte contemporânea brasileira 

 

O corpo é um dos principais temas da arte contemporânea. E é justamente na ruptura dos limites entre feminino e masculino que se localiza o seu maior ponto de interesse. Na sociedade ocidental, a segunda metade do século XX foi marcada por um profundo questionamento dos valores tradicionais, dos padrões de comportamento sexual e dos papéis clássicos desempenhados pelo homem e pela mulher. A transformação foi de tal ordem que não é fácil sintetizá-la em poucas palavras. 

 

Nas décadas de 1960 e 1970, o mundo foi sacudido pelos jovens e pelas mulheres. Na linha de frente contra o moralismo e o preconceito, estavam o movimento hippie, a contracultura, o ideal do sexo livre, o feminismo, a pílula anticoncepcional e suas implicações na liberação da sexualidade feminina. No entanto, nos anos 1980, o surgimento da AIDS e sua rápida disse- minação abalaram o ideal de liberdade sexual, acirraram a discriminação contra os homossexuais, inicialmente estigmatizados como grupo de risco, e deixaram marcas profundas no comportamento das gerações seguintes. Com todas essas heranças, e no contexto de um mundo digital e globalmente conectado, o século XXI começou com um espectro de questões sobre o corpo, o relacionamento amoroso e a sexualidade que certamente não se acomodam mais ao binarismo “masculino x feminino”. As obras de artistas brasileiros escolhidas para esta sala lançam luz sobre algumas peças possíveis para montar um quebra-cabeças de cenários em constante mutação.

7. Noivos (Série Roupas) (1973) - Nelson Leirner (São Paulo,1932)

Técnica mista: tecido e plástico

178 x 282 x 3 cm

Coleção Gilberto Chateaubriand

Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, Brasil

Fonte: www.mamrio.org.br, acesso em 02.06.16.

8. Série Luciana e a Lei da Gravidade (1990) - Gal Oppido (São Paulo, 1952)

42 x 59,4 cm 

Galeria Lume

São Paulo, Brasil

Fonte: www.galerialume.com, acesso em 02.06.16.

9. Sem título, 1997 - Tunga (Palmares, 1952)

Monotipia sobre papel reciclado

78 x 56,5 cm

Museu de Arte Moderna

São Paulo, Brasil

Fonte: www.mam.org.br, acesso em 02.06.16.

10. Metamorfoses 1 (2014) - Rodolpho Parigi (São Paulo, 1977)

Gravura, técnica Silk, impressão holográfica e acrílico 

70 x 60 cm

Galeria Carbono

São Paulo, Brasil

Fonte: www.tungaoficial.com.br, acesso em 02.06.16.

11. Sem Título (2005) - Pitágoras (Goiânia, 1964)

Desenho sobre Fotografia

21,2 x 16 cm

Coleção do Artista

Fonte: www.obrasdearte.com, acesso em 02.06.16.

12. Sérgio e Simone (2010) - Virgínia de Medeiros (Feira de Santana, 1973)

Curta-metragem, 20’, colorido

Fonte: www.31bienal.org.br, acesso em 02.06.16.

13. Narcisse, Exercício de Me Ver (1983) - Hudinilson Jr. (São Paulo, 1957 - São Paulo, 2013)

Fotocópia

32,5 x 23,5 cm

Artspace Gallery

Nova York, Estados Unidos

Fonte: www.artspacegallery.org, acesso em 02.06.16.

14. Raphael Alvarez (Rio de Janeiro, 1974) - Tatiana Issa (São Paulo)

Dzi Croquettes, 2009

Longa-metragem, 1’’50’, colorido

Fonte: www.redeglobo.globo.com, acesso em 02.06.16.

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