MUSEU NACIONAL DO CINEMA 

 

Concepção

 

O Museu Nacional do Cinema se apresenta como “um lugar especial e único em seu gênero”  (www.museocinema.it, acessado em 01/10/14), devido à sua inovadora expografia e à sua proposta tecnológica e interativa. O cenógrafo suíço François Confino14 foi o responsável pelos projetos cenográficos

do Museu do Cinema – um executado em 2000, e o segundo, em 2006. De acordo com o site do Museu, “E a partir dos ambientes da Mole, o cenógrafo suíço François Confino trabalhou com talento e fantasia, multiplicando os percursos de visita para dar vida a uma apresentação espetacular,

que submete o visitante a contínuos e inesperados estímulos visivos e auditivos, como acontece quando se assiste à projeção de um filme capaz de

envolver e emocionar15 ”. (www.museocinema.it, acessado em 01/10/14, trad. nossa).

 

O Museu, deste modo, promete uma verdadeira experiência sensorial ao visitante, cuja participação deve ser ativa de acordo com o percurso proposto. Sua concepção se encaixa perfeitamente no discurso de criação de lugares temáticos apresentado anteriormente – que usa a expografia interativa para materializar um tema imaterial. Para o cenógrafo, o tema do cinema apresenta componentes de movimento e imagem que não se encerram apenas numa coleção de objetos. Conforme suas próprias palavras, “não se pode pensar num Museu do Cinema só como um museu de objetos e máquinas, porque a essência do cinema é o filme”. (CONFINO, i n: www.museocinema. it, acessado em 01/10/14, trad. nossa).

 

Assim, percebe-se que a opção pelo uso de recursos tecnológicos consiste numa opção fundamental adotada pelo projeto para lidar com o tratamento do patrimônio imaterial. Segundo o cenógrafo, a proposta consiste em: “um mergulho de imersão total no mundo das imagens em movimento e da ficção. Num lugar de excepcional importância arquitetônica criamos um templo do cinema, uma homenagem à Mole Antonelliana”. (CONFINO, in: www.museocinema. it, acessado em 01/10/14, trad. nossa).

 

De fato, a relação com o espaço arquitetônico é buscada em alguns ambientes do museu, sendo que outros privilegiam a criação de cenários e a imersão do visitante num mundo não-real. Além disso, as zonas expositivas se misturam com propostas de experimentação e simulação do cinema, criando um espaço dinâmico e interativo. A aproximação do patrimônio imaterial é presente na proposta do Museu do Cinema, que se apresenta como “(...) guardião de uma matéria viva, como viva é a arte tecnológica do cinema, destinada a se renovar constantemente” (VERGERIO, 2002, 8,

 trad. nossa). Ou seja, da mesma forma que os demais casos estudados neste trabalho, o Museu do Cinema se apresenta como uma proposta atual, viva e que necessita de renovação constante.

 

Além disso, existe o desejo de que o Museu do Cinema seja um espaço de entretenimento, que deve suscitar emoções positivas no visitante

– a exemplo dos parques temáticos – como pode ser vislumbrado pelo trecho: “há interesse e satisfação em ver as pessoas saírem felizes do Museu do Cinema 19”.  (VERGERIO, 2002, 8, trad. nossa). No entanto, ao contrário dos demais casos tratados neste estudo, a preservação do patrimônio imaterial

se desenvolveu em torno de uma coleção e da manutenção de acervos ligados ao tema. O desejo de preservar e salvaguardar a memória do cinema

levou a fundadora, Maria Adriana Prolo, a coletar documentos cinematográficos, fotografias, revistas e máquinas desde a década de 1940. Atualmente,

o Museu conta com um amplo acervo, composto por cerca de 8.500 filmes, 900 aparelhos e objetos de arte, 200.000 documentos fotográficos, 26.000 volumes e 300.000 manifestos e materiais publicitários (www.italiadiscovery.it, acessado em 15/10/14).

 

Implantação

 

A primeira sede expositiva que recebeu o Museu do Cinema foi o Palazzo Chiablese, em Turim, no ano de 1958. Nesse espaço, era exposta parte

da coleção de lanternas mágicas, objetos e maquinários de cena, organizados em torno de um percurso composto por dezesseis salas, uma galeria

para mostras temporárias e uma sala de projeções. Depois de sete anos, contudo, o Museu passou a ser reconhecido como Museu Nacional do Cinema

e estava em plena expansão. Nesse contexto, considerou-se que o espaço arquitetônico do Palazzo Chiablese era inadequado para abrigar cenários

cinematográficos, espaços interativos e a coleção de fotografias históricas – que faziam parte das novas diretrizes do Museu. Além disso, havia o desejo

de se acrescentar novos programas: biblioteca, sala de leitura, cineteca, arquivo, fototeca e outras coleções – o que requeria acréscimo de áreas.

Nesse sentido, algumas alternativas foram estudadas para resolver a questão do espaço físico do Museu. No final da década de 1970, avaliou-se a possibilidade de instalá-lo num projeto de edifício novo, com trinta salas expositivas e espaço para exposições temporárias, adjacente ao Circarama.

Em 1977, cogitou-se a possibilidade de remontar o Museu do Cinema partes anexas do Museu do Automóvel. Além disso, pensou-se em adquirir novas salas expositivas no antigo Palazzo Chiablese. Contudo, a Mole Antonelliana acabou sendo escolhida como nova sede do Museu do Cinema pelo próprio impacto cenográfico que o edifício apresenta na cidade de Turim. O edifício da Mole é bastante impressionante em relação à arquitetura da cidade – dada a sua verticalidade acentuada e às suas próprias características arquitetônicas bastante singulares. Projetado originalmente como sinagoga pelo arquiteto Alessandro Antonelli, em 1863, o edifício nunca foi efetivamente utilizado por questões técnicas e administrativas. Assim sendo, a instalação do Museu do Cinema nesse edifício permitiu que o público não só conhecesse, mas também se relacionasse com um edifício que até então apenas compunha a paisagem da cidade. Pode-se, inclusive, considerar que a instalação do Museu nesse edifício acaba consolidando o já existente circuito de interesse cultural na cidade. A localização do Museu próximo ao centro histórico de Turim conforma um roteiro cultural e turístico, com distâncias percorríveis a pé, composto pelo Museu do Rádio e Televisão, Museu Egípcio, Palazzo Madama, Museo Nazionale del Risorgimento e Palazzo Reale. Além disso, relativamente próximos ainda estão a Galleria Sabauda e o Museu de Antiguidades. Um pouco mais distante, é possível visitar o Museu de História Natural.

 

Projeto de Arquitetura

 

A Mole Antonelliana, edifício emblemático na cidade de Turim, abriga atualmente o Museu Nacional do Cinema. Construída em 1863, foi concebida pelo arquiteto Alessandro Antonelli originalmente como uma sinagoga. Em 1878, foi adquirida pela Comune di Torino para exercer a função de monumento à unificação nacional. A obra só foi concluída em 1889 e, na época, era o edifício de alvenaria mais alto da Europa, atingindo 167m.

Consiste, até hoje, num dos principais símbolos arquitetônicos de Turim, devido à sua grande altura e destaque em relação aos demais edifícios que

compõem a paisagem da cidade. Uma das principais características da Mole Antonelliana é a presença de um elevador panorâmico que rasga

o centro do edifício, levando a um terraço no topo, a partir do qual pode se obter uma vista panorâmica da cidade. O elevador foi inserido no edifício em 1961, ocasião da celebração dos cem anos da unificação da Itália, e renovado em 1999, com as obras de restauro que permitiram a implantação do Museu. A subida é feita numa cabine de vidro transparente, em um único arco a céu aberto sem planos intermediários entre a partida e a chegada.

 

O referido projeto de restauro executado para o edifício em 1996 e concluído em 1999 é de autoria dos arquitetos Gianfranco Gritella e Antes

Bortolotti (CAMPAGNONI e PACINI, 2008, 9). Tal projeto propunha a restauração do edifício e a estruturação interna do Museu do Cinema. As obras

previam reforço estrutural, adequação às normas de segurança contra incêndio, recuperação das decorações da cúpula e das fachadas externas.

De acordo com a entrevista executada com o arquiteto Gianfranco Gritella, o projeto de arquitetura desenvolveu dois princípios fundamentais: restaurar e requalificar o edifício da Mole Antonelliana e possibilitar o acesso interno aos pavimentos superiores do edifício – dada a ausência das escadas originais. Partindo dessas premissas, criou-se um percurso expositivo partindo do grande salão, com objetivo de possibilitar o acesso interior do edifício,

destinado a receber as coleções.

 

As novas estruturas propostas foram projetadas utilizando aço associado a sistemas de construção préfabricados, apoiados sobre as bases

de concreto armado que datam do período entre 1920 e 1950, aproximadamente. Isso permitiu que se executasse o restauro das partes antigas

do edifício, destacando a intervenção posterior. Os elementos principais instalados sobre as bases de concreto foram a escada helicoidal e um sistema de

distribuição de rampas de aço suspensos no grande salão do Museu, chamado de Sala do Templo. Tais bases também sustentam as estruturas expositivas do primeiro pavimento e todas as estruturas no pavimento térreo. Também foi necessário executar a readequação do elevador panorâmico. No pavimento enterrado, os arcos em tijolos originais de Alessandro Antonelli foram deixados à mostra de acordo com o projeto arquitetônico, compondo espaços como a sala dedicada à Mole Antonelliana e a loja de souvenires. Com base nas indicações do projeto arquitetônico e do programa fornecido pela direção do Museu do Cinema foi executado o projeto de intervenção tecnológica e cenográfica de François Confino.

 

Percurso Museológico

 

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Após comprar as entradas, o visitante é conduzido a uma fila no interior do edifício que leva diretamente ao elevador – com acessos separados da entrada do Museu. Durante a subida de 85m, que dura quase um minuto, é possível ter uma vista muito interessante do interior da Mole – uma vitrine para o próprio Museu do Cinema. A ausência de patamares intermediários e a visibilidade externa dos cabos de aço que levam os visitantes ao topo da Mole causam a impressão de que o elevador flutua, rasgando o edifício. A subida com o elevador alcança um terraço panorâmico, a partir do qual é possível ver a cidade de Turim e seus arredores, incluindo os Alpes. Mesmo atingindo um espaço de total interação com o exterior, é nessa subida que o visitante se desconecta do ambiente externo, relaxa e aprecia as vistas da cidade. Além disso, tem a expectativa pela visita do Museu aguçada pelo vislumbre impactante de sua volumetria interna. Depois de descer com o elevador, quem adquiriu as entradas para o Museu segue o percurso. De qualquer maneira, existem acessos a alguns espaços independentes do ingresso: o Cabiria Caffé e a loja Museum Store, localizados no pavimento

térreo. Em tais lugares, é possível ver os arcos originais do projeto de Antonelli deixados à mostra pelo projeto de arquitetura e restauro. Este pavimento ainda conta com o Juke Box, espaço aberto ao público em 2013 que oferece audição gratuita das coleções sonoras cinematográficas do acervo. Ainda, no nível enterrado é possível acessar uma área informativa sobre a Mole Antonelliana, na qual estão expostas uma maquete 3D e paineis com desenhos

e relevos, mostrando as fases de construção do edifício. Neste espaço, também é possível ver a estrutura dos arcos de Antonelli. Em seguida, os visitantes são conduzidos a uma escada lateral por onde acessam o percurso expositivo.

 

Uma das principais diferenças entre o percurso no Museu do Cinema em relação aos demais casos é que o museu adota um sistema de circulação não-dirigida, como mostra o trecho: “Segue um percurso não rígido, deixado à livre escolha, que tem um prólogo já no pavimento térreo, onde se encontra uma área expositiva dedicada à história da Mole acessível também ao público de deficientes visuais ”. (CAMPAGNONI e PACINI, 2008, 13, trad. nossa). Assim, o visitante é deixado livre para percorrer as áreas do Museu de acordo com suas preferências. O interesse do visitante é estimulado durante todo o percurso, uma vez que a ambientação do Museu do Cinema possui forte apelo visual, sendo baseada em baixa luminosidade do ambiente, em contraponto a flashs de luzes que colocam alguns elementos em evidência. A escolha da cor vermelha para compor a comunicação visual do Museu, associada ao projeto de luminotécnica e aos demais elementos expográficos utilizados, cria uma atmosfera hollywoodiana no ambiente, fazendo o visitante se sentir como se estivesse no momento da entrega do Oscar. A cúpula da Mole, por outro lado, recebe iluminação diferenciada, acentuando o contraste entre as áreas expositivas e o espaço arquitetônico. Ela é iluminada como as obras que a expografia coloca em evidência, constituindo um exemplo da arquitetura tratada como elemento em exposição. O primeiro pavimento expositivo proposto (nível +5) se chama Arqueologia do Cinema. O percurso proposto é composto por oito salas temáticas que apresentam espetáculos óticos e dispositivos que marcam etapas fundamentais do nascimento do cinema, mostrando as tentativas que precederam o surgimento da produção cinematográfica. A proposta busca estabelecer contato com o visitante por meio da interatividade. O público deve tocar e explorar com as mãos os aparelhos expostos, a fim de conhecer os princípios técnicos que possibilitam seu funcionamento. São usados, também, outros artifícios expográficos – como vitrines mostrando coleções de objetos (materiais de cena, esboços, fotografias) e projeções de vídeos. Legendas digitais e tags permitem o acesso a mais informações e curiosidades sobre as obras expostas, além de incentivar o contato digital com a instituição museal. A sequência narrativa proposta nesse patamar apresenta teatros de sombras, caixas óticas e lanternas mágicas. São revelados, também, os segredos do movimento, fotografia, estereoscopia, cronofotografia e do cinema dos irmãos Lumière. O primeiro espaço do percurso é o Teatro de Sombras, que explora a projeção de sombras de folhas de papel recortadas em formas humanas e de animais sobre fundo branco. A expografia apresenta vitrines com objetos originais, monitores com informações e as próprias projeções de sombras. O percurso, contudo, não mostra a arquitetura da Mole, focando-se nos objetos e nas atividades propostas. 

 

A  seguir, o visitante é conduzido ao espaço dedicado aos experimentos de Ótica, no qual é possível interagir com sistemas baseados nos dispositivos óticos, compostos por lentes e espelhos. A expografia conta com paineis explicativos, projeções e atividades que exigem a participação do visitante – como os modelos da Mole Antonelliana, cuja visualização varia de acordo com as lentes. Existe, também, um dispositivo que explica, de modo didático, o conceito de distância focal – no qual o visitante vê a própria imagem invertida. A seguir, o visitante se depara com as Caixas Óticas, máquinas que mostram imagens no fundo de aparelhos de visualização individual, associados a paineis explicativos. A próxima atração proposta para o percurso do museu se chama Panorama, na qual o visitante se depara com imagem 360°, e entra em contato com desenhos de paisagens, tendo a ilusão de se encontrar em um ambiente real. Além disso, a componente temporal é inserida na proposta, ao passo que o visitante é submetido a uma variação progressiva de luminosidade, simulando a passagem do dia. Depois, há a sala Lanternas Mágicas – um dispositivo que projeta imagens aumentadas, possibilitando a realização de experiências coletivas relacionadas à projeção de imagens. O visitante fica fascinado pelas imagens sobrenaturais que surgem no escuro, projetadas por esses aparelhos. Em seguida, existe a sala dedicada ao Movimento, onde é possível ver dispositivos que permitem reproduzir o movimento a partir de uma sequência de imagens estáticas. O visitante é, então, convidado a rodar a manivela de uma máquina, podendo ver a imagem se formando a partir de uma série de fotos. A seguir, no início do século XIX, surge o advento da Fotografia, que permite a materialização de imagens capturadas. A sala que se segue apresenta uma iluminação diferente em relação às anteriores, contando com vitrines que expõem máquinas e exemplos de fotos estampadas do período. O próximo espaço apresenta ao visitante a Cronofotografia – que lida com estudos de movimento e de fotografia instantânea que se fundem para animar as imagens. Na sequência, existe a sala O nascimento do cinema. É o primeiro espaço que apresenta pequenos filmes em aparelhos individuais, a exemplo da experiência das caixas óticas. A projeção em telas amplas marca o surgimento do cinema. 

 

O Salão Central, localizado no nível +10, conta com o elevador panorâmico no centro, cujo vaivém constante pode ser apreciado pelo público do Museu. O efeito de suspensão propiciado pelos finos cabos expostos causa espanto e dramaticidade. Todo o salão é repleto de poltronas vermelhas para o visitante se reclinar e observar projeções que ocorrem diretamente na cúpula ou nos telões. As poltronas apresentam autofalante incorporado, não causando ruídos perturbadores para as demais atividades do museu. É feita a projeção em telões de três filmes de vinte minutos cada: “Il cinema muto a Torino”, “Ballabile in bianco e nero” e “Ballabile a colori”, de Gianni Amelio. A intervalos regulares, as projeções se interrompem para execução de espetáculo de luz e som na cúpula. O espaço é dominado pela presença da reprodução de Cabiria, o primeiro colossal italiano produzido em Turim. Ele faz parte de um conjunto de nichos que circundam o espaço, dedicados a temas e gêneros cinematográficos diversos: Animação, Absurdo, Amor e Morte, Big Bang, Cinema Experimental, Cinema 3D, Espelhos, Horror, Ficção Científica, Velho Oeste, Turim e Verdadeiro e Falso. Cada espaço apresenta uma cenografia própria, com forte apelo visual, e introduz um espaço adjacente onde o visitante pode se surpreender com os espaços apresentados. Cada tema é desenvolvido de um modo muito particular – o que gera um conjunto de espaços não uniforme no pavimento térreo. Nas capelas são expostos objetos referentes aos temas, como peças de figurinos, fazendo o visitante se sentir num set de filmagem. Ou seja, peças e objetos que compõem o vasto acervo do Museu são, como estratégia expográfica, ambientados em cenários espetaculares.

 

A Capela Cabiria, por exemplo, tem sua entrada marcada pelo “monstro devorador de crianças, Molok” (VERGERIO, 2002, 67), objeto não original que desempenha função cenográfica. Dentro da sala, pinturas, mobiliário e cortinas recriadas a partir da ambientação do filme compõem um cenário instigante, marcado por telas com projeções de trechos do filme. Por sua vez, a Capela Turim homenageia a cidade a partir de uma acolhedora ambientação de café, na qual o visitante tem a possibilidade de se sentar nos balcões do bar enquanto assiste a trechos de filmes e admira fotografias e cartazes expostos nas paredes. Da capela Cabiria, também é possível acessar o espaço dedicado ao Cinema 3D, bem como a Capela Big Bang, local de explosões de emoções – sejam de felicidade, de lágrimas, de caminhões ou de bombas. A ambientação para essa capela conta com poltronas suntuosas que remetem a épocas passadas – objetos cenográficos, inseridas num cenário de demolição. Já a Capela do Amor e da Morte convida ao percurso por um longo corredor, chegando, no final, a quarto nupcial com luz suave, ambientado com cortinas vermelhas e uma grande cama redonda que gira sobre si mesma ao tiquetaquear de um relógio. O visitante pode se acomodar no colchão e nos travesseiros para assistir a projeções de cenas no teto do baldaquino. A seguir, a capela do Absurdo  sugere outro tipo de ambientação, partindo do pressuposto de que, no cinema, tudo é possível. Logo, trabalha no mundo do irracional e do imprevisível. A entrada da sala é marcada por uma enorme geladeira dotada de asas – elemento cenográfico – fora de escala e que estimula a fantasia e o imaginário. Um exemplo de espaço proposto nessa capela é a sequência de banheiros iluminados que possibilitam assistir a cenas absurdas da história do cinema. O próximo espaço proposto é a capela da Animação, dedicada ao mundo fantástico dos desenhos animados e que explora o universo dos cartoons. Da Capela do Absurdo também é possível acessar a área Horror, na qual o visitante é recepcionado por um caixão do Drácula com a tampa ligeiramente aberta e é convidado a reviver algumas das cenas mais pavorosas da história do cinema. O próximo espaço proposto se chama Espelhos, no qual a imagem do visitante é refletida indefinidamente por espelhos que recobrem paredes, piso e teto. O visitante, nesse caso, torna-se protagonista principal da atividade, vendo a si mesmo como num autorretrato surpreendente. A seguir, encontra um espaço dedicado ao Velho Oeste e, mais adiante, à Ficção Científica.

 

Por sua vez, a área Cinema Experimental cria o ambiente de um laboratório de cientista maluco, a partir de filmes destruídos, acessórios fora de uso, agentes químicos empilhados, entre outros elementos cenográficos. Antes de entrar, o visitante passa por uma “sala de descontaminação”, depois da qual assume o papel de “cientista maluco”, sendo estimulado por pequenas telas escondidas em todos os cantos do laboratório – nas pias, no forno, abaixo da prateleira do balcão, no teto, nas vitrines, etc. Já a sala Verdadeiro e Falso apresenta o cinema como um jogo de ambiguidades entre verdadeiras aparências realizadas com falsos materiais. É esse o próprio jogo proposto pela sequência de capelas – criação de ambientes cenográficos irreais, que parecem verdadeiros. O primeiro espaço cria a ilusão de ser uma sala habitada pelas pessoas retratadas nas fotografias sobre os móveis. É possível se sentar nos sofás, como se o visitante estivesse num ambiente doméstico. No entanto, duas telas declaram o objetivo da sala: uma transmite ensaios de eventos que realmente aconteceram, enquanto a outra retrata os mesmos eventos, mas com abordagem cinematográfica. Depois de percorrer essas atrações – que remetem diretamente a atividades propostas em parques temáticos – o visitante tem a possibilidade de subir por uma escada suspensa  e acessar os demais níveis do museu, que se desenvolvem em torno de uma rampa helicoidal  que percorre todo o volume interno da Mole. A escada e a rampa apresentam grande plasticidade, remetendo formalmente a um filme desenrolado. Ambas são suspensas por cabos de aço – um sistema estrutural delicado e praticamente invisível – dando a impressão de que estão flutuando. No percurso das rampas ocorrem exposições temporárias, desde 2001, com exibição de cartazes de filmes dramaticamente iluminados por fachos de luz. 

 

No seguinte pavimento do museu (nível + 15), A máquina do cinema, apresentam-se diversos componentes da indústria cinematográfica – como estúdios de produção, direção, roteiros, estúdios cinematográficos, atores, figurinos, cenografias, storyboard, máquina de filmagem, montagem do filme, truques e efeitos especiais. A sequência culmina na sala cinematográfica. Logo na entrada, o espectador se vê simbolicamente projetado na tela à sua frente, sendo colocado no centro de uma cena que o envolve num universo de ficção como o dos filmes. A seguir, é mostrado todo o percurso de idealização, produção e distribuição de um filme, a partir de inusitadas montagens cenográficas, incluindo documentos de produção, objetos de cena, fotografias e esboços. A sequência de espaços proposta para esse nível do museu parte do conceito da recriação de ambientes – nos quais se misturam fotografias, croquis originais, peças de figurinos e projeções de trechos de filmes em meio à cenografia. São reconstituídos ambientes de produção, gabinetes dos diretores, camarins das estrelas, etc. Criam-se, assim, espaços ficcionais e desconectados da arquitetura, mas que remontam a ambientes externos e criam o percurso da sequência de etapas envolvidas na produção cinematográfica. O uso de papeis de parede e iluminação artificial compõe o conjunto dos espaços propostos para a sequência. A primeira sala trata da Cenografia. Há desenhos e esboços que remontam ao espaço idealizado para o desenvolvimento da história. Esses materiais são associados a projeções em telas e papeis de parede. A seguir, encontra-se uma área dedicada aos Figurinos, onde há peças em exposição que apresentam forte valor para a história do cinema – como os figurinos de Joan Crawford, Lawrence Olivier, Tyrone Power e o chapéu de Charles Chaplin. O tratamento dessas peças é diferenciado em relação aos elementos cenográficos – uma vez que são valorizadas em vitrines e identificadas com placas explicativas e legendas. 

 

O próximo espaço se chama Atores e Elenco, e traz em exposição fotos, croquis e peças de figurinos de atores de importância. Na sala Roteiros foi criado um ambiente que remonta ao escritório no qual os roteiros são escritos. Há a exibição de documentos originais, como o roteiro original de Psycho, doado por Hitchcock. A próxima sala, Estrelas, traz o mito das divas – como Greta Garbo, Rita Hayworth, Marilyn Monroe e Sophia Loren – a partir da reconstituição de seus camarins, com elementos cenográficos e fora de escala. Já a sala Diretores apresenta a coordenação dos elementos presentes no filme por meio de vitrines com croquis e ambientação de papeis de parede e projeções em telão. O seguinte espaço, Estúdios, remonta aos lugares onde se realiza a magia do cinema – estúdios cinematográficos como Warner, Columbia, Fox e Universal. A seguir, há uma sala dedicada à Produção, que propõe a reconstituição do gabinete do produtor a partir de elementos cenográficos como a mesa de trabalho e da exposição de fotos nas paredes. Depois, existe o espaço O público e as salas, que apresenta o surgimento e desenvolvimento da sala cinematográfica aos espaços Imax, 3D e digital. A seguir, o visitante é submetido a uma sequência de experiências interativas: Chroma Key, Matte painting e Meliès. No Chroma Key, o visitante se senta diante de uma câmera e de um monitor. É possível selecionar uma cena e interpretar na frente do fundo verde – localizado atrás do visitante. O filme produzido na hora aparece em tempo real na televisão. A área seguinte, Truques e Efeitos Especiais, mostra o uso de maquiagens, modelos mecânicos e fantoches, que substituem elementos cenográficos em escala reduzida. Há vitrines com fantoches e modelos, associadas a papeis de parede e projeções que mostram esses elementos. Como elementos originais em exposição, podemos citar o alienígena do filme Aliens – batalha final, de James Cameron. Por sua vez, a sala Montagem mostra o processo de seleção do material, montagem e composição do filme. Nesse processo é explicada a etapa do storyboard – estudos de sequências de enquadraturas cinematográficas. Há a exposição de exemplos clássicos, como o storyboard executado para Hitchcock. As reproduções de desenhos são acompanhadas de monitores que exibem a cena descrita nos paineis. Na sequência há uma sala dedicada às Trilhas Sonoras dos filmes seguida pela sala Tomadas. Ali, são mostradas câmeras de filmagem, paineis com fotos, papel de parede e projeções. A última parte do percurso, Filme, apresenta o produto final de todo o processo tratado nas salas anteriores. O próximo pavimento (nível +18) apresenta a Galeria dos Cartazes, que traz a história dos cinemas, dos filmes e dos atores. É mostrada a evolução do gosto figurativo, da gráfica e dos cartazes publicitários – agrupados por cinematografia, movimentos e períodos históricos. O visitante se diverte reconhecendo filmes, atrizes e personagens conhecidos, num espaço em que é mobilizada a memória coletiva e afetiva. É possível verificar a delicadeza dos suportes dos cartazes, levemente suspensos, e a estrutura da Mole aparente. Todo o aparato instalado para a expografia não se contrapõe à arquitetura existente, mostrando-a e se relacionando com ela a partir do princípio da reversibilidade da intervenção. Além disso, é possível ver o espaço-síntese do museu, a Sala do Templo, do alto – um ponto de vista privilegiado da arquitetura do Museu.

depoimentos 

“Para chegar ao terraço, você entra num elevador de vidro com os cabos de aço totalmente expostos, dentro da sala principal do Museu. A sensação é de estar flutuando. É realmente impressionante. E a vista lá de cima é maravilhosa”.

“O Museu é bonito e interessante! Talvez seja um pouco infantilizado, mas é bem estruturado e os ambientes são bem montados. Além disso, visitar a Mole já vale a pena. É estupenda por dentro”.

“Uma parte interessante foi a que explicava conceitos de ótica. Era possível vivenciar fisicamente as experiências propostas”.

“No térreo há dois telões onde se projetam filmes. Há também aquelas magníficas poltronas

onduladas para deitar e assistir às projeções na cúpula. É realmente uma surpresa incrível”.

"As salas temáticas eram bem legais, mas começaram a ficar desatualizadas. O ideal seria ter só filmes clássicos, ou atualizar constantemente”.

 

Bibliografia

 

ANGELINI, Francesca; CASANOVA, Marta; SAVIOZZI, Alice; SECCO, Eleonora e SIMONINI, Sara. Restauro della Mole Antonelliana di Torino

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CAMPAGNONI, Donata Pesenti e PACINI, Nicoletta. Il museo nazionale del cinema. Torino, Umberto Allemandi & C., 2008.

 

VAVASSORI, Massimiliano. Dossier musei 2009. Touring Club Italiano, 2009. Disponível em: www.static.touring.it, acessado em 03/12/14.

 

VERGERIO, Carolina (org). Il museo del cinema nella Mole Antonelliana di Torino. Torino, Umberto Allemandi & C., 2002.