MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Concepção e proposta

 

O Museu da Língua Portuguesa surgiu a partir de uma parceria entre o governo do Estado de São Paulo e a Fundação Roberto Marinho, tendo contado com o apoio de uma série de empresas e entidades. Atualmente, é gerido pela Organização Social de Cultura IDBrasil – Cultura, Educação e Esporte a mesma responsável pela gestão do Museu do Futebol. A abordagem proposta tem como objetivo mostrar a língua portuguesa como elemento formador da cultura brasileira, aproximando o visitante de seu próprio idioma e evidenciando que a língua é “propriedade” de quem a usa (www.museudalinguaportuguesa.org.br, acessado em 21/09/14). Tal modo de aproximação se insere perfeitamente na discussão a respeito do papel do museu na sociedade contemporânea, encarando a preservação como um tema associado à valorização e à difusão de conhecimento (SARTINI, cf. ARAÚJO, 2006). Dessa maneira, a preservação do patrimônio está diretamente relacionada à busca de canais de diálogo com o público – cujo foco está direcionado aos jovens, aos quais é atribuída a responsabilidade pelo futuro e a quem se deve estimular o prazer e o fascínio pelo conhecimento.

Assim, o estabelecimento de um discurso lúdico, didático e que facilite o aprendizado é um dos objetivos da instituição. Nesse sentido, o Museu promove

cursos, palestras, seminários, apresentações gratuitas e realiza exposições temporárias sobre temas relacionados à língua e suas áreas de influência, abrindo vários canais de contato e aproximação do público. Um dos desafios principais enfrentados foi a intenção de criar um espaço plural e diversificado, a exemplo da própria língua, como mostra a própria composição multidisciplinar da equipe que concebeu o Museu, formada por sociólogos, museólogos, especialistas em língua portuguesa e artistas. Assim, a expografia tecnológica surge em função da apresentação dos conteúdos, uma vez que se refere à materialização do patrimônio imaterial. Conforme o trecho: 

 

muito mais que aplicar as tecnologias ao espaço expositivo por puro deleite de modernidade, o Museu da Língua Portuguesa adota tal museografia a partir de um dado muito simples: seu acervo, nosso idioma, é um “patrimônio imaterial”, logo não pode ser guardado numa redoma de vidro e, assim, exposto ao público. A preservação do patrimônio imaterial é um tema extremamente importante e complexo, e que, só recentemente, começou a ser discutido no mundo. Hoje, o Brasil já dispõe de legislação específica, que permite o registro de tal patrimônio, reconhecidamente importante para a manutenção e valorização da nossa identidade cultural”. 

(in: www.museudalinguaportuguesa.org.br, acessado em 21/09/14).

 

Ainda, o atual diretor, Antônio Carlos Sartini, reforça a necessidade da experimentação quanto à tecnologia expográfica, de acordo com o trecho: “ferramentas tecnológicas diferenciadas devem ser colocadas à disposição em torno do objetivo de divulgação e comunicação do acervo. Todas as possibilidades, desde que coerentes e usadas de forma ordenada, podem e devem servir como valorização do acervo exposto. Assim, o museu entende que todo conhecimento acumulado e toda nova ferramenta deve ser experimentada”. (SARTINI, 2010, 271). Ou seja, busca-se enfrentar os desafios da contemporaneidade, no que se refere tanto à proposta museológica, quanto ao projeto expográfico. Vemos, assim, que a experimentação expográfica se apresenta como fio condutor de uma instituição de caráter permanente, responsabilizando-se pela materialização e difusão do tema imaterial. Em suma, pode-se dizer que o funcionamento do Museu gira em torno de uma grande exposição complementada por ações educativas (BITTENCOURT, 2005, 155), com apresentações teatrais e de contadores de histórias, oferecimento de cursos, palestras e seminários. Por outro lado, vemos que não há vinculação a uma política de aquisição de acervos, sendo as atividades voltadas para a aproximação e contato com o público. De qualquer forma, a instituição publica periodicamente uma série de artigos relacionados ao tema da língua portuguesa em seu website. Contudo, não se compreende bem se essas publicações se articulam a alguma linha de pesquisa estruturada, conforme o trecho: “a única atividade que se aproxima da divulgação científica é uma página do site que divulga monografias de acadêmicos, embora não seja clara a relação entre essas produções e as atividades museais”. (BITTENCOURT, 2005, 115). 

 

Implantação

 

O edifício da Estação da Luz, foi construído em 1867 pela Companhia São Paulo Railway, responsável pelo escoamento da produção de café em direção ao porto de Santos. Foi projetado pelo arquiteto inglês Charles Henry Driver e inaugurado em 1901, e sua construção utilizou uma série de materiais e componentes importados da Inglaterra. O edifício apresenta grande relevância histórico-arquitetônica no contexto da cidade de São Paulo, sendo tombado em nível estadual (Condephaat, 1982), municipal (Conpresp/ DPH, 1991) e federal (Iphan, 1996). Conforme o trecho: “a Estação da Luz, pela qualidade de sua construção e composição, pela sua importância como marco da cidade, sendo desde sua construção, um dos elementos caracterizadores da região e referencial da cidade; pela importância do ciclo econômico ao qual está vinculada [...] pode ser considerada uma grande criação pelo seu valor histórico e artístico e é depositária de numerosas estratificações do conhecimento e da memória coletiva”. (KÜHL, 2008, 183). Em 2001, por ocasião da necessidade de restauração do edifício, foram discutidos possíveis novos usos para o prédio que até então funcionava como administração da Companhia de Transportes e Trens Metropolitanos (CPTM). Nesse contexto, surgiu a ideia de transformá-lo num centro de referência e valorização da língua portuguesa, dando origem ao Museu. Não é possível, porém, identificar nenhuma relação direta entre o tema da língua portuguesa e o edifício da Estação da Luz, embora seja justificável o fato de o Museu da Língua Portuguesa estar localizado na cidade de São Paulo, que conta com o maior número de falantes da língua portuguesa no mundo (www.museudalinguaportuguesa. org.br, acessado em 20/04/15). Por outro lado, o novo uso proposto para o edifício possibilitaria o acesso da população a um edifíciosímbolo da cidade, o que não era possível anteriormente. Além disso, pode-se acrescentar que o edifício-sede do Museu conta com localização privilegiada no bairro da Luz, bastante acessível pela rede de transportes públicos – uma vez que na Estação da Luz funciona um terminal de passageiros que interliga as linhas de trem e metrô da cidade. A implantação do projeto nesta localidade parece seguir uma lógica de formação de polo de interesse cultural na cidade. Afinal, nas proximidades da Estação da Luz existem a Pinacoteca do Estado, o Museu de Arte Sacra de São Paulo, a Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes e o Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca – o que configura a formação de um roteiro cultural facilmente acessível por transportes públicos e passível de ser percorrido a pé. 

 

Projeto de Arquitetura

 

O Museu da Língua Portuguesa foi concebido pelos arquitetos Pedro e Paulo Mendes da Rocha como um projeto de intervenção no edifício da Estação da Luz. Em 1946, houve um incêndio que danificou principalmente a ala leste do edifício, o grande salão central e a torre do relógio. De 1947 a 1951, o edifício sofreu intervenções responsáveis pelo acréscimo de um pavimento na ala leste, construído em concreto armado. Tal intervenção alterou a volumetria e o sistema construtivo originais do edifício. Para sustentar o pavimento acrescido, foram acrescentados dois conjuntos de quatro colunas no salão principal. Na década de 1970, o edifício passou por obras para a inserção de elevadores e modificação de ambientes internos na ala oeste. Depois disso, permaneceu sem significativas intervenções. Apenas em 2001 iniciou-se o processo de restauração do edifício, a partir do qual surgiu a iniciativa de convertê-lo no Museu da Língua Portuguesa. O projeto de arquitetura apresentou o desafio de transformar um edifício no qual funcionava a administração da CPTM num espaço aberto ao público. Para tanto, diversas alterações foram executadas no edifício. Partiuse do desafio de transformar uma área de acesso restrito, configurada por pequenos gabinetes e circulações acanhadas, num espaço arquitetônico amplo, revelando o volume e a extensão da Estação da Luz. Uma das premissas de projeto, segundo entrevista com o arquiteto Pedro Mendes da Rocha, foi não conflitar o fluxo rápido de pessoas que utilizam os transportes públicos com o fluxo dos visitantes do Museu. Esse fator levou ao posicionamento da entrada e da saída nas extremidades do edifício, onde antes existiam pátios de carga. Nestes locais, foi proposta a instalação de marquises, pontuando o início e o fim do percurso. Para resolver a questão da circulação vertical, optou-se por abrir vãos nas lajes para inserir os elevadores, bem como elevar o nível do acesso aos elevadores para instalar o poço de molas no nível térreo. No terceiro andar, para a instalação do auditório, o nível foi elevado em 1,10m – o que permanece visível pela alteração da altura dos peitoris em relação ao pavimento.

 

Além disso, foi proposta a abertura de vãos nas lajes do edifício, revelando a estrutura de sustentação da cobertura. Outra alteração proposta pelos arquitetos foi o fechamento das janelas abertas no segundo pavimento – acrescentado por ocasião da reforma após o incêndio – e a retirada parcial das alvenarias, abrindo espaço para a instalação de um grande corredor expositivo, de 110m de comprimento. Essa proposta alterava substancialmente a concepção espacial original do edifício – o que provocou diversos debates com os órgãos de preservação. No primeiro pavimento, as alvenarias não portantes e as divisórias da ala leste foram removidas, abrindo espaço para a área de exposições temporárias. A ala oeste, em bom estado de conservação, concentrou as atividades administrativas do Museu e não sofreu grandes alterações. Algumas propostas dos arquitetos encontraram dificuldade para serem aprovadas pelos órgãos de preservação – que solicitaram que a ala oeste, não atingida pelo incêndio, não sofresse alterações substanciais. Isso levou os arquitetos a locar elementos do programa que exigiam espaços mais amplos na ala leste, enquanto espaços que exigiam maior compartimentação ficariam na ala oeste. Essa porção do edifício passou, em 2003 e 2004, por obras de restauro das fachadas e, no ano seguinte, por um processo de recuperação de pinturas decorativas dos antigos gabinetes e restauração de forros, assoalhos e ladrilhos hidráulicos; recuperando as grades de ferro fundido e os paineis tipo pavês, que levavam iluminação zenital ao piso inferior. Conforme veremos adiante, é possível vislumbrar esses elementos em alguns espaços do percurso proposto para o Museu. De um modo geral, pode-se verificar um conflito entre o partido arquitetônico adotado e as exigências dos órgãos de preservação. Algumas intervenções, como a demolição de alvenarias para a abertura da Grande Galeria e a instalação de elevadores na ala oeste do edifício – encontraram dificuldades na sua aprovação. Segundo o trecho: “grande parte dos técnicos é visceralmente contrária à intervenção em bens tombados, e o projeto interferia muito na edificação original. Mas o importante é que não se prejudiquem os espaços essenciais, que efetivamente caracterizam o edifício, como a gare e a torre do relógio, por exemplo. Fomos favoráveis à mudança porque o tombamento não pode significar a mumificação”. (LEMOS, cf. GRUNOW, 2006, 47- 49). Ainda, o próprio autor do projeto, Paulo Mendes da Rocha, acrescenta: “não se pode tocar o prédio só um pouquinho, sob pena de não se fazer uma boa intervenção. Nossa preocupação foi sempre a de constituir, além do passado, o patrimônio do amanhã”. (ROCHA, cf. GRUNOW, 2006, 49). Por outro lado, a intervenção no edifício encarado como objeto de memória a ser preservado pode ser questionada, como mostra o trecho:

 

No entanto, o anteprojeto inicialmente apresentado desconsiderava amplamente os elementos do interior do edifício, eliminando-os em quase sua totalidade, e alterava a volumetria do edifício. Ademais, não foi formulado o conteúdo e o programa de utilização do prédio, ou seja, apresentava-se um projeto que implicava mudanças substanciais, com um uso nominal de centro de referência da língua portuguesa, mas o programa detalhado não existia. (KÜHL, 2008, 187). 

 

Percurso Museológico

A visitação do Museu da Língua Portuguesa segue o esquema de circulação dirigida, na qual o percurso sugerido tem início no terceiro pavimento, e desce em direção à extremidade oposta do edifício. A ambientação do Museu da Língua Portuguesa, feita pelo escritório norte-americano Ralph Appelbaum, apresenta forte caráter cenográfico. A estratégia utilizada principalmente no segundo pavimento cria um ambiente escuro, revestido de preto, no qual a luz alaranjada marca o percurso do visitante. Os elementos de comunicação visual – placas, totens, etc. – pontuam o percurso, orientam e explicam ao visitante a proposta das salas. É criada uma atmosfera virtual, na qual a escuridão e as luzes coloridas propiciam a desconexão do visitante em relação ao mundo exterior. Logo na entrada, o visitante é recepcionado por uma marquise, abaixo da qual se localizam as bilheterias. O percurso tem início num processo de ruptura com o mundo cotidiano (DAVALLON, cf. GONÇALVES, 2004, 92), propondo o desligamento da realidade e a imersão na atmosfera temática do Museu. Essa ruptura começa a ocorrer dentro do elevador que leva o visitante ao terceiro piso do edifício. Trata-se de uma opção de arquitetura, que começa a indicar a volumetria do edifício, e também de uma proposta museográfica, pois dentro do próprio elevador o visitante ouve um arquivo de áudio de autoria de Arnaldo Antunes, na qual as palavras “língua” e “palavra” são repetidas em vários idiomas. Ainda, do elevador, é possível observar a Árvore das Palavras, escultura do artista plástico Rafik Farah, que ‘cresce’ do térreo até o terceiro pavimento. Consiste em uma representação visual da diversidade de línguas e palavras que formam o português falado no Brasil, servindo de metáfora para as ‘raízes’ do idioma. A árvore também pode ser vista dos patamares de acesso aos elevadores, através de divisórias transparentes de vidro. No terceiro andar, o visitante se depara com um foyer, no qual podem ocorrer exposições temporárias. Neste espaço, é possível ver a alteração do nível original do pavimento pela altura dos peitoris das janelas. A seguir, encontra-se o auditório, onde é possível assistir a um vídeo de dez minutos sobre a origem das línguas e da sua relação com a formação cultural das sociedades, inserindo o português falado no Brasil nesse contexto. A ideia de se iniciar o percurso pelo auditório, segundo a entrevista com o arquiteto Pedro Mendes da Rocha surgiu do projeto museográfico, que pretendia considerar a experiência museológica como um ‘livro’, sendo o vídeo no auditório o seu ‘prólogo’. Assim, o vídeo assume a função de conferir aos visitantes uma base de conteúdo para subsidiar a visita, assumindo importância para a imersão do visitante na proposta temática da língua portuguesa. Embora ainda assuma uma postura passiva, o visitante se desliga totalmente do mundo real quando adentra no auditório. 

 

A concepção de um auditório facilita e foca a atenção do visitante para a projeção em questão, tornando eficaz a proposta de comunicação. Além disso, o espaço do auditório revela uma das soluções arquitetônicas mais interessantes propostas pelos arquitetos: a abertura das lajes mostra a estrutura da cobertura original do edifício. Trata-se de uma solução que expõe a arquitetura do próprio edifício. Logo depois, o telão de nove metros, no qual foi projetado o vídeo, gira inesperadamente, revelando de modo surpreendente a próxima sala do museu. Tal artifício impressiona e surpreende o visitante, introduzindo o prosseguimento do percurso. O espaço revelado se chama Praça da Língua. A experiência proposta para este espaço começa e termina com um chão luminoso que acende, onde o visitante pode ler fragmentos de poemas ou trechos de livros. Em seguida, o visitante pode se sentar nos bancos laterais para apreciar o espetáculo de luz e som, composto por imagens projetadas na estrutura exposta da cobertura da estação, com 13,5m de altura, e nas paredes do ambiente. O espetáculo apresenta poesias e trechos de grandes nomes da música e da literatura na língua portuguesa, como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Guimarães Rosa, Machado de Assis e Vinícius de Moraes. A narração usa a voz de artistas conhecidos, como Chico Buarque, Juca de Oliveira e Maria Betânia. Ao total, existem três apresentações de vinte minutos cada, que ocorrem alternadamente. Nessa atividade, é acionada a memória coletiva do visitante – uma vez que são apresentados trechos e autores muito conhecidos. Consiste em uma proposta que revela a fusão completa entre espaço museográfico e arquitetônico, pois mostra a estrutura original do edifício, filtrada pelo espetáculo multimídia. A ideia era de criar uma espécie de planetário, explorando a língua como elemento formador da cultura brasileira. A parte gráfica e a animação dos textos que colidem, surgem e desaparecem é fundamental na composição do espetáculo. Estava prevista a inserção de cinco telas de formato circular sob o coroamento do edifício, nas quais seriam executadas as projeções. Posteriormente, foi estudada a possibilidade de retirar a laje sob a grande mansarda, de modo que as projeções pudessem ser feitas diretamente na estrutura da cobertura do edifício. Tal solução potencializou os efeitos previstos para o espaço. Na saída da Praça da Luz, o visitante é conduzido novamente ao foyer por um corredor lateral, no qual se depara com vistas que remetem ao entorno do edifício da Estação da Luz. É possível ver, emoldurados por uma sequência de janelas, o Parque da Luz e a Pinacoteca do Estado. O visitante, então, é conduzido novamente ao elevador, por onde tem acesso ao segundo pavimento – cujo foco está na relação entre a língua portuguesa e a cultura brasileira.

 

Neste local, existe a Grande Galeria, um corredor lateral escuro que ocupa toda a extensão da fachada posterior, mostrando o comprimento longitudinal da Estação da Luz. A grande empena, de 110m, serve para a projeção de onze filmes simultâneos. Essa foi uma opção da arquitetura, com objetivo de revelar o volume do edifício e de criar um percurso novo, articulando os três blocos principais que compõem o edifício. A solução foi aproveitada pelo projeto museográfico, que buscou fazer uma leitura da Estação da Luz enquanto estação de trem. Há 36 projetores que formam uma imagem longa e contínua de um trem veloz que chega, para e cujas portas se abrem. Em seguida, as projeções se dividem em onze partes, abordando temas cotidianos associados ao uso da língua viva – como música, danças, festas, futebol, religião, entre outros. Isso é possível uma vez que os projetores são interligados a um centro de processamento de dados, comandados via software, que funde ou fragmenta as imagens, formando um painel único em movimento ou um mosaico composto de diversas cenas. É um espaço que induz ao movimento linear contínuo, seguindo as faixas de luz laranja que marcam o percurso. Entretanto, existe um banco linear que dá ao visitante a possibilidade de parar e apreciar as projeções. O próximo espaço que se apresenta ao visitante é chamado de Palavras Cruzadas. A demolição das alvenarias criou um espaço marcado por doze pilares – cada um representando uma cultura que influenciou na formação do português falado no Brasil. Deste modo, vemos que o espaço é composto por um conjunto de totens triangulares cor de laranja, cada um envolvendo um pilar do edifício. Os totens apresentam uma série de telas interativas, nas quais o visitante, por meio do toque, pode pesquisar informações sobre a influência das culturas dos povos na língua portuguesa. O funcionamento do dispositivo é semelhante ao de um website, que abre janelas com um clique – e se insere perfeitamente na proposta de estimular o interesse pelo conhecimento e a curiosidade. Há, também, a presença de bancos nos quais o visitante pode se sentar enquanto pesquisa. Do outro lado dos totens, há paineis informativos e vitrines com objetos que remetem à cultura dos povos que influenciaram na formação da língua portuguesa – indígenas, africanos e europeus. Os objetos apresentados nas vitrines pertencem ao cotidiano e servem como elementos alegóricos relacionados às culturas dos povos tratados. O próprio Museu tenta explicar a exposição daqueles objetos, conforme o texto transcrito a seguir: “esta parte do museu é denominada palavras cruzadas. Aqui, há objetos de diversas culturas integrantes da aventura que nos envolve: a língua portuguesa. São lanternas que possibilitam espiar culturas que formaram nosso modo de falar. Neste espaço, você não encontrará objetos típicos de museus: únicos, muito antigos e de valor monetário alto. Estão expostas peças cotidianas, coisas concretas feitas por falantes de mundos indígenas, africanos, europeus e asiáticos. Elas traduzem crenças, jogos, culinária e afeto. Estão vivas! Mais do que peças antigas, são pedaços da criatividade atual de muitos povos”. (KARNAL, cf. exibido no Museu da Língua Portuguesa).

 

A seguir, o visitante encontra a Linha do Tempo. Segmentada em três partes, mostra as influências europeias, ameríndias e africanas na formação do idioma falado no Brasil. O dispositivo apresenta reproduções de capas de livros e manuscritos ilustrando os principais episódios que marcaram a formação da língua – como numa enciclopédia de conhecimento. A Linha do Tempo é pontuada por terminais multimídia nos quais o visitante pode acessar a vídeos com explicações do professor Ataliba de Castilho a respeito dos temas tratados no percurso. As telas são interativas, sendo possível escolher o tema de interesse para aprofundamento. No final da Linha do Tempo, encontra- se um equipamento chamado Mapa dos Falares, no qual o visitante seleciona na tela uma área do Brasil e assiste a vídeos mostrando as variações de sotaques regionais no território brasileiro. Depois de retomar o percurso pela Grande Galeria, há um espaço chamado "O projeto de restauro". É um corredor onde se pode encontrar informações sobre o processo de restauração do edifício da Estação da Luz expostas em paineis. Neste espaço, é possível fazer uma leitura da arquitetura antiga do edifício administrativo e vislumbrar pisos e esquadrias originais. Trata-se de um espaço que sofreu pouca interferência museográfica, onde é possível apreender a concepção inicial do edifício. Saindo do corredor, o visitante encontra o último espaço da exposição permanente, chamado de "Beco das Palavras". Nesta sala, é proposta uma atividade lúdica e interativa – um jogo que brinca com a formação de palavras a partir de radicais, prefixos e sufixos numa mesa eletrônica dotada de sensores de infravermelho que respondem ao movimento dos braços dos visitantes. É uma atividade voltada para o público infantil, com forte caráter didático, que parte do uso de recursos tecnológicos – permitindo ao visitante interagir com a etimologia e com os conteúdos semânticos das palavras. Descendo de elevador ao primeiro pavimento, é possível acessar as exposições temporárias, cujos temas geralmente se relacionam à literatura e ao idioma. Em março de 2015, estava em cartaz a exposição temporária "Humor nos anos de chumbo". Na conclusão do percurso, o visitante poderia ser convidado a vislumbrar o espaço interno da Estação da Luz, pois a arquitetura oferece essa possibilidade, tanto pela presença de janelas como do acesso a uma parte da plataforma, retomando o contato do visitante com o mundo real e mostrando o esplendor do próprio edifício da Estação da Luz. No entanto, o acesso à plataforma, uma bela surpresa proposta para a saída do Museu, é vetado aos visitantes. No pavimento térreo, o projeto de arquitetura previa café, espaço digital e livraria. De acordo com o depoimento do arquiteto Pedro Mendes da Rocha, o acesso a esses espaços seria público, sendo que as áreas sob as marquises configurariam zonas de passagem – contando com a abertura dos arcos não-estruturais localizados nas extremidades do edifício. Tais soluções não foram levadas adiante – sendo que os antigos pátios de carga permanecem fechados. Café, espaço digital e livraria nunca foram implantados.

 

 

cansou de ler?

depoimentos 

“O Museu é fantástico. Valorizar a língua é fundamental para a formação cultural do Brasil“.

“A Praça da Língua, com todas aquelas projeções, é sensacional. É o espaço de que eu mais me

lembro depois da visita”.

“O museu é bem montado, com recursos bem feitos. A parte audiovisual é muito rica e interessante. Porém, com baixa intensidade e pouco conteúdo informativo. O material é muito bonito, com espaço bem resolvido e limpo”.

“Eu fui com a expectativa de ver papeis, livros, objetos antigos sobre a língua portuguesa; mas me deparei com atividades muito modernas para mostrar a língua.

Acho que tinham muito mais coisas a serem mostradas”.

“Gosto da interatividade porque tenho um contato

direto com a proposta do museu”.

 

Bibliografia

 

ALFANO, Ana Paula. Museu da Língua Portuguesa é o mais visitado. 16/04/07. Disponível em: www.terra.com.br, acessado em 21/09/14.

 

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