O MUSEU CONTEMPORÂNEO

 

Arquitetura, museografia e patrimônio imaterial

 

 

 

 

Bianca Lupo . trabalho final de graduação, apresentado à FAU USP em 01.07.2015

Orientador: prof. dr. Luciano Migliaccio

 

 

 

Introdução

 

A proposta de trabalho final de graduação aqui apresentada visa a compreender os espaços que surgem e se reinventam na sociedade em que vivemos; considerando, sempre, as diversas temporalidades presentes na concepção e utilização desses espaços em função da preservação da memória coletiva: a articulação entre o antigo e o novo e o desafio de se lidar com as novas tecnologias. Não há exemplo de instituição que se relacione de modo mais direto com as questões de tempo, espaço e memória que os museus – instituições permanentes cujo fundamento está pautado na preservação e conservação da memória para as gerações futuras; salvaguardando, divulgando e expondo testemunhos materiais e imateriais dos povos e de seu ambiente

 (Código de ética do ICOM, cf. FIGUEIREDO, 2011, 198).

 

A preocupação com a preservação patrimonial é um assunto cuja importância se fortaleceu no século XX, após as duas guerras mundiais – e que vem abordando, cada vez mais, novas questões na discussão sobre o que deve ser considerado objeto de preservação e quais as possibilidades no âmbito da preservação da memória e do patrimônio. Nesse sentido, as instituições museais possuem grande importância tanto na tutela como na difusão de patrimônios culturais. Não se pode negar, contudo, que tanto o conceito de patrimônio quanto a forma com a qual os museus lidam com essa questão estão passando por um forte processo de transformação na sociedade contemporânea. Tais transformações podem ser vistas tanto no âmbito da concepção, como da espacialização dos espaços museais e decorrente percepção pelo público.

 

Em relação à concepção e à estruturação institucional dos museus, é possível observar que, desde sua abertura ao público no século XVIII, essa instituição vem passando a exercer um papel de integração cultural e fomento educacional na sociedade contemporânea. É notável, a partir do final da segunda guerra mundial, a adoção e sistematização de políticas de inclusão social nas instituições museais, buscando torná-las cada vez mais acessíveis e compreensíveis às camadas sociais heterogêneas e diversificadas que compõem os públicos recebidos pelos museus. Tal questão se manifesta de modo ainda mais expressivo em países latino-americanos, nos quais a redução da desigualdade social e a busca pela democratização do acesso à cultura e educação constituem demandas de grande relevância.

 

Assim, é possível observar que a relação do museu com o público vem assumindo um grau de importância cada vez maior na contemporaneidade – alavancado, também, pela grande escala que os fenômenos culturais de massas assumem na sociedade contemporânea. A globalização, a facilidade dos meios de transporte, o turismo de massas, as novas tecnologias e o advento dos meios de comunicação – principalmente a internet – aumentam amplamente as possibilidades de difusão e o raio de influência das instituições museais. Ao mesmo tempo, essas novas condições modificam profundamente as modalidades de ação de tais instituições.

 

A popularidade dos museus na sociedade contemporânea é, de fato, notória. Empresas, bancos e fundações encontram no fomento à arte e nos investimentos culturais uma forma de se aproximar da sociedade e de garantir sua autopromoção midiática – o que, associado à ampla divulgação nos veículos de comunicação, alavanca ainda mais a captação de novos públicos para as instituições museais. Nesse sentido, as mais diversificadas estratégias de divulgação – sites, redes sociais, publicações, periódicos, etc. – passam a fazer parte de museus que podem, em diferentes graus, se desvincular da materialidade do acervo ou do próprio espaço físico no qual se localizam e passam a assumir características que, cada vez mais, tendem à formação de um espaço virtual.

 

Resta perguntar, diante deste contexto, de que maneira se configure o espaço do museu na contemporaneidade, de acordo com as transformações pelas quais essas instituições vem passando. Podemos pensar no museu como espaço de reestruturação e requalificação urbana no território – constituindo polos de fomento à cultura e instrumentos de revitalização de áreas que exercem papel importante no contexto da cidade – configurando importantes atrativos relacionados ao turismo, entretenimento e cultura. Além da preservação do conteúdo proposto pela iniciativa museal, o próprio espaço do museu pode se apresentar como instrumento de garantir a preservação do patrimônio edificado – como se pode observer pelas iniciativas de restauração de edifícios históricos para a instalação de propostas museais.

 

Por outro lado, é possível, também, verificar que o museu contemporâneo pode servir como campo de experimentação arquitetônica – como é o caso, por exemplo, do Museu Guggenheim, em Bilbao, de Frank Ghery; ou o MAC Niteroi, de Oscar Niemeyer. Os casos de espetacularização da arquitetura dos museus, que passam a configurar elementos de grande impacto plástico em seus contextos urbanos, não serão objeto de estudo proposto para este trabalho – embora constituam um interessante campo de questionamento e reflexão a respeito dos museus na contemporaneidade.

 

Ainda pensando na espacialização das propostas museais contemporâneas, é possível observar que o programa dessas instituições também vem passando por um processo de diversificação. Livrarias, restaurantes, cafés, lojas de souvenires, etc. compõem um espaço cada vez mais plural e diversificado, mesclando lazer, entretenimento e cultura no espaço do museu. Se a espacialização do museu

demanda uma leitura do espaço urbano e do patrimônio edificado, por um lado; por outro, a percepção dessa arquitetura por parte do público vem passando por uma série de transformações guiadas pelas novas estratégias de comunicação nos campos da museografia e da expografia. A experiência museal por parte do visitante vem se tornando cada vez mais complexa ao ser acrescentada dos mais variados recursos expográficos – que variam do uso de suportes, luzes, cores, recursos sonoros e cenográficos – os quais, inclusive, podem adquirir valor estético, artístico e narrativo próprio.

 

Os diversos filtros de informação aos quais o visitante é submetido durante a experiência museal criam novas dinâmicas de percepção sensorial não só do conteúdo apresentado, mas do próprio espaço no qual o visitante imerge durante a experiência no museu. Tais transformações sofrem influência direta do uso de novas tecnologias e recursos cenográficos na area da experimentação expográfica – além de serem fruto, inclusive, de uma mudança de paradigma da própria instituição museal – que foca, cada vez mais, na relação e interação com o public como elemento fundamental da ação museológica.

 

Deste modo, com base no trinômio concepção-espacialização-percepção, o estudo proposto tem como objetivo discutir a relação entre arquitetura e museografia no museu contemporâneo, a partir da execução de estudos de caso que suscitam discussões sobre a relação entre a cenografia expográfica e o espaço arquitetônico do museu na atualidade. arquitetura e museografia Em que medida é possível analisar a relação entre museografia e arquitetura, tendo em vista o trinômio concepção-espacialização-percepção?

 

Do ponto de vista da concepção, podemos observar dois tipos de situação-chave que relacionam a museografia à arquitetura. A primeira delas considera a arquitetura como suporte de infinitas museografias, ao passo que a museografia e a arquitetura assumem distintas características de permanência temporal – e também uma certa independência no que se refere à sua concepção. A segunda situação se aproxima de uma fusão entre as propostas de arquitetura e museografia – sendo que as soluções museográficas podem tirar partido direto da arquitetura e vice-versa. Um exemplo claro desse tipo de situação é o Museo Castelvecchio, em Verona; mas também podemos lembrar do Museu de Arte de São Paulo, de Lina Bo Bardi, no qual a museografia e a arquitetura funcionam a serviço de um mesmo programa museológico. Ainda, pode-se observar situações museais mistas, que mesclam soluções de independência entre arquitetura e museografia a espaços de fusão entre os dois projetos.

 

A espacialização das propostas de arquitetura e museografia, sejam elas concebidas separadamente ou uma em função da outra, constituem o percurso museológico pelo qual o visitante é conduzido e a partir do qual ele vive sua própria experiência museal. O papel desempenhado pela arquitetura durante a visita ao museu é bastante evidente, uma vez que constitui o próprio espaço no qual acontece a fruição da visita ao museu por parte do visitante. A museografia, contudo, insere novas escalas na percepção do espaço, ao estabelecer relações entre o conteúdo exibido e o espectador. A narrativa e o discurso transmitidos pelo museu – compost seja pelo acervo ou pelas experiências propostas para o visitante – apresentam-se como vários filtros pelos quais o visitante vivencia a experiência museal, estabelecendo diferentes escalas de atenção visitante-espaço e visitante-conteúdo. O próprio percurso a ser transcorrido pelo visitante aparece como um híbrido entre os condicionamentos físicos dados pela arquitetura e o despertar de interesses do visitante que, condicionado pelas associações, memórias e fantasias evocadas durante o percurso no museu, conduz e compõe seu próprio percurso. No entanto, existe uma tensão entre a museografia e a arquitetura no espaço do museu – sejam elas concebidas em conjunto ou isoladamente.

 

De acordo com Bruno Zevi, “a cenografia, a arquitetura pintada ou desenhada não são arquitetura (...); em outras palavras, a experiência espacial não é dada enquanto a expressão mecânica e fatual não tiver realizado a intuição lírica.” (ZEVI, 2009, 24). Logo, se por um lado podemos dizer que o espaço museográfico é um espaço arquitetônico; por outro, o espaço cenográfico não é um espaço arquitetônico, embora o condicione – e é exatamente esse o ponto principal de  investigação do trabalho: avaliar em que medida as soluções museográficas se relacionam ao espaço arquitetônico, e de que modo interferem na percepção desse espaço. 

 

Neste momento, coloca-se uma questão: como definir os objetos de estudo a partir dos quais se pretende avaliar a relação entre museografia e arquitetura, tendo em vista as transformações que vem ocorrendo no espaço do museu contemporâneo? Evidentemente, o tema é bastante amplo e abre caminho para diversas possibilidades de análise. Logo, explicitarei, a seguir, quais os pontos fundamentais considerados na composição deste estudo, e que levaram à formação da reflexão aqui proposta. A escolha dos objetos de estudo

foi feita levando em consideração uma indagação fundamental: o tema desenvolvido pelo museu faz diferença quanto à relação entre arquitetura e museografia?

 

Considerou-se que sim, visto que a expografia dos museus apresenta características bastante diferentes no que se trata, por exemplo, da preservação do patrimônio material em contraponto à preservação do patrimônio imaterial. Ao se tratar do patrimônio imaterial, os recursos expográficos e cenográficos são utilizados de maneira bastante expressiva, assumindo grande parte da responsabilidade de transmitir o discurso museológico proposto. Assim, a utilização de recursos audiovisuais e tecnológicos utilizados para tornar tangíveis temas a princípio não materializáveis cria diversas camadas de percepção do usuário em relação à arquitetura e ao próprio discurso museológico. Deste modo, optou-se pelo estudo de intervenções de musealização do patrimônio imaterial – nas quais as novas mídias e tecnologias influenciam de modo ainda mais contundente na relação entre concepção-espacialização-percepção.

 

Além disso, levou-se em consideração o desejo de esmiuçar a relação tempo-espaço-memória no museu contemporâneo, em casos nos quais a tecnologia expográfica se apresenta em edifícios de reconhecida importância histórico-arquitetônica nas cidades nas quais se inserem. Por essa razão, optou-se por escolher casos de implantação de museus no patrimônio edificado, nos quais a escolha de edifícios de relevância para a memória das cidades assume papel fundamental na própria preservação do edifício, além do patrimônio em questão tratado pelo museu.

 

Por fim, já que se trata de um fenômeno característico da sociedade contemporânea, gostaria de propor um estudo comparativo entre países com tradições museográficas distintas, verificando até que ponto o museu responde a desafios semelhantes ou carrega particularidades inerentes às sociedades e culturas que os produzem. Assim, propõe-se a realização de estudos de caso emblemáticos – exemplos de museus criados no século XXI, mas que celebram e preservam a memória relacionada ao patrimônio edificado ao se instalarem em edifícios de importância arquitetônica e urbanística para as cidades. Os exemplos selecionados, ainda, constituem casos

de musealização do patrimônio imaterial, e utilizam fortemente recursos tecnológicos e interativos em sua expografia. Logo, destacam-se dois casos emblemáticos que abordam a questão de modo criativo e experimental na sociedade brasileira – o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006, e o Museu do Futebol, de 2008 – ambos em São Paulo – em contraponto ao Museu do Cinema, do ano de 2000, em Turim, na Itália. A partir da análise desses estudos de caso se propõe o desenvolvimento da monografia proposta

para este trabalho.