INCERTEZA VIVA 

 

Análise da 32ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo a partir das obras 

“(…when they grow up...)”, de Ebony Patterson;

“Dois pesos, duas medidas”, de Lais Myrrha, e

“O peixe”, de Jonathas de Andrade.

 

 

Bianca Lupo, Irene Kawasaki, Isolda Nascimento e Lygia Rodrigues. setembro 2016

MYRRHA, Laís. Dois pesos, duas medidas. 32ª Bienal de São Paulo. São Paulo, 2016. 

Introdução

 

Refletir sobre as condições de incerteza e provocar o olhar artístico sobre o mundo contemporâneo e seus dilemas ambientais, políticos, sociais, étnico-raciais e culturais foi o desafio proposto pela equipe organizada pelo curador Jochen Volz e pelo grupo de co-curadores Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen e Sofia Olascoaga, para os cerca de oitenta artistas e coletivos convidados para participar da 32ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, com duração prevista de 7 de setembro a 11 de dezembro de 2016, no Pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

 

A proposta foi um convite a trabalhar a questão da incerteza, entendendo-a não como um caos, mas como uma condição inerente à vida em transformação. De acordo com entrevista concedida pelo curador, “nossa intenção é provocar ideias para o futuro. Com todas as incertezas políticas, sociais e culturais que vivemos, acho importante apostar em uma nova geração, novas formas de se articular um pensamento crítico. Esse foco é bem relevante”. [1] 

 

Certamente, a questão da incerteza não consiste em uma particularidade do nosso século. Entretanto, talvez o momento atual sugira reflexões partindo da percepção aguçada de que a natureza e a vida social se movimentam sobre o incerto, sobre terrenos com comportamentos variáveis, lidando com respostas imprevisíveis e situações que saem do controle do homem e que testam continuamente suas capacidades de adaptação, reinvenção e reflexão.

Diante desse contexto, enfatiza-se a necessidade do exercício crítico na projeção do futuro – questão essa que permeia vários campos do saber, mas que na arte encontra um solo propício para seu desenvolvimento. Afinal, no processo criativo, o artista pode idealizar e produzir realidade, pode “medir o que não tem medida, mensurar o imensurável” – conforme as palavras do próprio curador Jochen Volz [2] –, o que remete à ideia do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty de que o fazer artístico tem o potencial mágico de dar visibilidade ao invisível. A partir dessa perspectiva, é possível olhar para o amplo conjunto de obras propostas que dialogaram com as incertezas vivas do nosso tempo, indagando em que medida as obras suscitadas podem ser lidas a partir do alcance e da potência criativa que as obras de arte podem oferecer em seu próprio fazer artístico.

 

Alguns temas recorrentes podem ser identificados a partir de um olhar panorâmico sobre o conjunto de obras que compõe a 32ª Bienal, desenvolvendo abordagens que se associam, em diferentes graus de aproximação, a questões socioculturais, espaciais e ambientais/ecológicas. Se é possível pensar num denominador comum para grande parte dos temas propostos pelos artistas, talvez se possa inferir alguma conexão com o processo de modernização industrial e tecnológica, que se reflete em muitos receios enfrentados pela sociedade contemporânea: o medo de perda da identidade cultural, da especificidade espacial e da própria condição ambiental frente às pressões homogeneizadoras do capitalismo, da cultura de massas e da sociedade global, encaradas de maneira ampla e abrangente.

Evidentemente, o raciocínio que fundamenta essa leitura apresenta forte caráter ideológico e favorece o potencial da arte em questionar o status quo. Contudo, conforme aponta o historiador da arte Rodrigo Naves, o “excesso de ideologização” proposto no discurso curatorial para a 32ª Bienal resultou no que ele ironicamente descreveu como uma “cacofonia de jardinzinhos e casas de barro, muitas delas falsas, com estrutura artificial por baixo”.[3] Ainda segundo Naves, “faltou arte, que é onde realmente nossas certezas são postas em xeque. Ideologias são tigres de papel”.[4]

De certa maneira, por sucumbir à produção de discursos e a uma visualidade fácil, a questão da carência de produção de novos significados vislumbrada por Rodrigo Naves na 32ª Bienal de São Paulo pode ser associada a dificuldades recorrentes na produção de arte contemporânea. Segundo o trecho do crítico de arte Lorenzo Mammì:

 

 ...as obras de arte sofrem de uma incapacidade congênita de se adequar aos novos tempos (...). Diante desse impasse várias soluções são esboçadas. A mais poderosa, porém, mais rudimentar, é a de conferir à arte conteúdos elaborados fora dela. Minorias culturais, políticas e sexuais reivindicam o acesso à arte como um salão nobre de comunicação. Neste caso a arte não é vista como um fim ou como um meio, mas como sinal de status. Regride à função pré-renascentista de carregar questões, sem ser ela mesma uma questão. (MAMMÌ, 2012, p. 14).

 

A partir dessas questões, três obras foram escolhidas para análise por considerarmos que constituem exemplares representativos dos principais eixos temáticos presentes na 32ª Bienal de São Paulo – ao passo que aludem a temáticas socioculturais, espaciais e ambientais – tendo como intuito investigar em que medida os trabalhos propostos refletem e propõem novas abordagens a partir do tema da “Incerteza Viva”, ou se estão associados a simplificações superficiais de discursos ideológicos, conforme indicou o texto crítico de Rodrigo Naves. Assim, as obras escolhidas para análise foram “(…when they grow up...)”, de Ebony G. Patterson; “Dois pesos e duas medidas”, de Laís Myrrha; e “O peixe”, de Jonathas de Andrade.

 


1. Ebony G. Patterson, "(...when they grow up)" . por Irene Kawasaki

Em uma Bienal dominada por tons neutros e terrosos, a instalação cor-de-rosa da artista jamaicana Ebony G. Patterson surpreende o visitante que ascende ao segundo andar do pavilhão. A sala, com muitos brinquedos espalhados pelo chão, remete ao quarto de uma criança de família abastada. Nas paredes, a artista criou “tapeçarias” compostas de imagens de adolescentes negros quase cobertas por camadas de longos fios de miçangas.

Essas “tapeçarias” compõem grande parte da obra de Patterson, bem como a profusão de cores e a sobreposição de materiais. A (in)visibilidade da população negra é um tema caro à artista, presente na quase totalidade de seus trabalhos, e a série “(...when they grow up...)” não foge à regra. No entanto, para esta Bienal, Patterson se inspirou abertamente no caso dos adolescentes mortos por uma saraivada de tiros da Polícia Militar do Rio de Janeiro contra o carro em que estavam em novembro de 2015.[5]  

 

Não por acaso, na série “(...when they grow up...)”, adolescentes negros são retratados realizando atividades do dia-a-dia, como conversar, brincar, namorar, usar o celular etc.   A incerteza proposta pela obra de Patterson é, portanto, o que esses jovens fariam se a vida não lhes fosse negada, bem como as oportunidades e o poder de consumo que estão à disposição das crianças brancas – representados ali pelos inúmeros, porém inacessíveis, brinquedos.

  

2. Laís Mhyrra, "Dois pesos, duas medidas" . por Bianca Lupo

 

A obra de grandes dimensões intitulada “Dois pesos, duas medidas”, da artista belo-horizontina Lais Myrrha, ocupa do vão central do edifício do Pavilhão da Bienal com duas torres de mesmas dimensões, sendo uma delas composta por materiais orgânicos – tais como cipós, toras de madeira, palha, etc. – e a outra, por materiais industrializados – a exemplo de tijolos, cimento, canos de pvc, entre outros. 

A artista trabalha com camadas sobrepostas de elementos construtivos empilhados, sem distinções quanto às possíveis funções relacionadas aos materiais construtivos (fundações, estrutura, vedação, cobertura, entre outros), sendo que os diferentes materiais são utilizados apenas para compor o invólucro cuja aparência remete a um edifício em alturas. Nesse sentido, a inicial oposição entre materiais orgânicos e materiais industrializados passa por um processo de nivelamento, sendo que o resultado final da produção é absolutamente indiferente em relação aos materiais utilizados. Por outro lado, a relação do visitante com a obra também se dá de maneira indiferente. Os pretensos “edifícios” não convidam à entrada, apenas pousam, num contraponto entre materialidade e volatilidade, no solo da Bienal, sendo que nenhuma relação além da contemplação é possível em relação à obra.

3. Jonatas de Andrade, "O peixe" . por Isolda Nascimento e Lygia Rodrigues

Na obra, o ritual inventado pelo artista se transforma em realidade, já que não há atores em cena, mas sim dez pescadores que vivem no lugar e trabalham com a pesca artesanal. São eles que experimentam de verdade aquele estranho ritual amoroso com seus peixes, enfatizando as ambiguidades da relação do homem com a natureza. Essa liberdade da arte de produzir realidade interessa a Jonathas de Andrade:

 

A arte me permite experiências que seriam impossíveis enquanto somente pesquisador ou cientista social. Posso manejar tradições com mais fluidez; inventar metodologias; experimentar ficções em que posso ser ora pedagogo e pesquisador, ora fugitivo, extraditado, meliante. Parto de urgências e desconfortos cotidianos, de certa forma até pessoais, que ganham dimensão social através da experiência artística. Com isso me tomo como uma célula geracional e o percurso do trabalho detona uma série de contradições que me colocam diretamente em contato com o tempo que me precede, fazendo da História, da Economia e dos Problemas Nacionais entidades mais palpáveis, menos abstratas.[6]

 

E talvez esteja nessa manipulação da realidade a grande força do vídeo, que causa desconforto ao escancarar paradoxos da existência humana num mesmo ato, num só gesto, e transita entre a violência e a solidariedade, o domínio e a compaixão, a vida e a morte.

 

Considerações finais

 

Como foi possível apreender pelos breves comentários tecidos sobre as obras, a questão da massificação industrial e das angústias provenientes pelas pressões e medos frente aos processos de homogeneização cultural parecem ser uma tônica na abordagem das incertezas por parte dos artistas contemplados – seja por meio dos brinquedos industrializados trazendo sonhos à difícil realidade enfrentada pelas crianças no contexto jamaicano; dos materiais construtivos industrializados em contraponto aos materiais orgânicos; e do distanciamento entre homem e natureza associado à indústria alimentícia, como se pode apreender a partir da provocação suscitada pela obra “O peixe”.

 

Se a relação entre esses elementos é permeada pela tensão no caso da primeira obra, em que o conturbado contexto social na Jamaica é ambiguamente situado dentro de um “quarto cor de rosa”, cheio de brinquedos espalhados pelo chão; por outro, a obra “Dois pesos, duas medidas” de desvincula desse tipo de abordagem, sendo que materiais diferentes coexistem acriticamente sob a forma dos edifícios em alturas tão amplamente difundidos na realidade contemporânea. Talvez fosse possível se pensar num título “Dois pesos, uma medida”, aludindo ao traço homogeneizador da cultura construtiva na atualidade.

 

Por sua vez, a obra “O peixe” se utiliza de um raciocínio mais subjetivo, no qual as possíveis relações com a incerteza decorrente da cultura de massas são colocadas num segundo plano, sendo que a relação entre o homem e seu “objeto de consumo” é trazida de maneira emocional e subjetiva, enunciando sentimentos contraditórios e ambíguos que podem ser lidos a partir de certa humanização do próprio “Peixe” – que deixa, portanto, de ser mero objeto massificado. Nesse caso, a obra de arte suscita outras leituras que extrapolam possíveis discursos de lamentação frente às incertezas do futuro, ou que enfatizam a incapacidade de se reagir às transformações culturais, políticas, econômicas e tecnológicas em curso.

 

Conforme pontuou Aracy Amaral em artigo sobre a 32ª Edição da Bienal de São Paulo[1], elementos como “monotonia”, “ausência de expectativas” e a “dificuldade de uma poética ou do contato com a realidade atual através da arte” (AMARAL, 2016) endossam a posição de Rodrigo Naves sobre a “falta de arte”. Talvez essa própria dificuldade de se lidar com o momento presente, evidenciada pelas indefinições e incertezas observadas na tentativa de se estabelecer algum tipo de discurso crítico presente em grande parte das obras apresentadas, demonstre que o tema de provocação sugerido para essa edição da Bienal possivelmente tenha acertado o cerne das questões que angustiam o momento contemporâneo e para as quais, certa ou incertamente, as possíveis respostas ainda se encontram em processo de elaboração.

 

Notas

[1] Trecho da entrevista do curador Jochen Volz para a revista Bamboo em dezembro de 2015. Disponível em: <http://bamboonet.com.br/posts/na-32a-bienal-de-sao-paulo-o-curador-alemao-jochen-volz-discute-a-incerteza-sobre-questoes-ecologicas-politicas-e-culturais>. Acesso em setembro de 2016.

[2] Idem. 

[3] Trecho da entrevista do historiador da arte Rodrigo Naves ao Jornal O Estado de São Paulo em setembro de 2016. Disponível em: < http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,32-bienal-de-sao-paulo-incertezas-vivas,1000007715>. Acesso em setembro de 2016.

[4] Idem.

[5] Para mais informações, ver: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/12/mais-de-100-tiros-foram-disparados-por-pms-envolvidos-em-mortes-no-rio.html>. Acesso em 29/09/2016.

[6] Para mais informações, ver: <www.jonathasdeandrade.com.br>. Acesso em 27/09/2016.

Referências

AMARAL, Aracy. 32ª Bienal de São Paulo: Qual arte contemporânea?

Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,32-bienal-qual-arte-contemporanea,10000078365>. Acesso em 28/09/2016.

MAMMÌ, Lorenzo. O que resta: arte e crítica de arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

NAVES, Rodrigo. “32ª Bienal de São Paulo: incertezas vivas?”. Especial para O Estado de S. Paulo, 20/9/2016.

Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,32-bienal-de-sao-paulo-incertezas-vivas,10000077152>. Acesso em 26/09/2016.

VOLZ, Jochen. Trecho de entrevista. Revista Bamboo, dezembro de 2015. Disponível em: <http://bamboonet.com.br/posts/na-32a-bienal-de-sao-paulo-o-curador-alemao-jochen-volz-discute-a-incerteza-sobre-questoes-ecologicas-politicas-e-culturais> Acesso em 26/09/2016.

Websites consultados:

<http://arte1.band.uol.com.br/ajustes-finais-2/>. Acesso em 27/09/2016.

<www.bienal.org.br>. Acesso em 27/09/2016.

<http://ebonygpatterson.com>. Acesso em 27/09/2016.

<www.jonathasdeandrade.com.br>. Acesso em 27/09/2016.

<http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/12/mais-de-100-tiros-foram-disparados-por-pms-envolvidos-em-mortes-no-rio.html>.

Acesso em 26/09/2016.