O CONCEITO DE 'FATO MUSEAL' E O MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Bianca Lupo . novembro 2016

 

 

Introdução

 

O estudo proposto tem como objetivo refletir sobre as novas relações que se estabelecem entre os princípios teóricos da museologia e as recentes criações de instituições museais que, ao desenvolver temas relacionados ao “patrimônio imaterial”, desassociam-se do colecionismo de acervos materiais e propõe novas relações museológicas entre público, acervo e espaço museal. Nesse sentido, investigar quais são as novas relações que se estabelecem no que se refere ao chamado “fato museal”, conceito desenvolvido por Waldisa Rússio Guarnieri, é a proposta desta reflexão, a partir do caso específico do Museu da Língua Portuguesa (São Paulo, 2006).
A definição dos princípios teóricos que delimitam a museologia enquanto disciplina parte de discussões relativamente recentes, desenvolvidas sobretudo no contexto da segunda metade do século XX. Nesse sentido, destaca-se o pensamento de Waldisa Rússio Camargo Guarnieri (1990) trabalha numa tentativa de definir o objeto de estudo da Museologia, tentando entender quais as especificidades da museologia enquanto campo disciplinar autônomo, e propondo um distanciamento em relação às concepções tecnicistas relacionadas ao trabalho com acervo, ao encarar de modo abrangente a museologia em seu aspecto interdisciplinar e social.


Conforme o texto de Maria Cristina Bruno (2010), Waldisa Rússio dialoga com correntes de pensadores da museologia – a exemplo de Stránsky e Gregorová – os quais encaram a museologia como “estudo da relação específica do homem com a realidade” (BRUNO, 2010, p. 152). Waldisa Rússio, contudo, aprofunda essa discussão ao propor o conceito de “fato museal” como o objeto de estudo privilegiado da disciplina.


No entendimento da autora, “o fato museal é a relação profunda entre o homem, sujeito conhecedor, e o objeto, parte da realidade à qual o homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir [...] relação esta que se processa num cenário institucionalizado, o museu” (RÚSSIO, cf. BRUNO, 2010, p. 204). Deste modo, Waldisa Rússio estrutura o pensamento museológico em torno do tripé homem-objeto-cenário; considerando, para tanto, o homem como o público recebido pelas instituições museais, o objeto como “tudo o que existe fora do homem e a partir de sua consciência” (RÚSSIO, cf. BRUNO, 2010, p. 205) e o cenário (o espaço físico museal) como “a base necessária à atividade museológica, é uma condição na qual o fato se processa, se realiza” (RÚSSIO, cf. BRUNO, 2010, p. (206).


Se por um lado essa relação ainda se demonstra consistente para se pensar a museologia na contemporaneidade; por outro, uma série de transformações pelas quais as instituições museológicas vêm passando – considerando sobretudo a ampliação do conceito de patrimônio cultural, ao incorporar o chamado “patrimônio imaterial” – nos levam a repensar sobre a base teórica e metodológica previamente estruturada. Afinal, torna-se comum no século XXI a criação de instituições desassociadas de acervos materiais, nas quais o uso de recursos expográficos tecnológicos assume papel fundamental no que se refere à comunicação entre a instituição museológica e seu público. No contexto brasileiro, alguns casos de instituições formadas no século XXI lidam especificamente com essas questões, sendo as principais o Museu da Língua Portuguesa (São Paulo, 2006) e o Museu do Futebol (São Paulo, 2008).


Um olhar superficial sobre essas instituições, as quais partem da desassociação em relação a acervos materiais para o tratamento de temas imateriais, sugeriria a seguinte pergunta: é possível ocorrer o “fato museal” nessas condições? De que maneira o tripé proposto por Waldisa Rússio poderia se associar conta desse novo tipo de realidade museológica (partindo do princípio que se trata efetivamente de um museu, uma vez que as instituições se auto denominam como tal)? Ou, por outro lado, será possível estabelecer uma relação museológica em termos distintos do chamado “fato museal”?


Trata-se, evidentemente, de questões complexas, e cujos desdobramentos podem ser vistos em contextos ainda mais inquietantes – como, por exemplo, é o caso dos “museus virtuais”[1], desassociados não só do acervo material, mas também do espaço físico. Não se tem, contudo, a pretensão de aprofundar a análise nessa direção; apenas direcionar as perguntas propostas ao caso do Museu da Língua Portuguesa, devido principalmente ao fato de que esse museu não contava com absolutamente nenhum objeto material de acervo (enquanto o Museu do Futebol expunha alguns objetos materiais de interesse museológico, como a camisa do Pelé).


Como decorrência desse fato, o incêndio que o Museu da Língua Portuguesa sofreu em 2015 não provocou perdas em termos de acervo” [2], causando a situação a princípio contraditória num espaço museal em que a perda do edifício por catástrofe não implica necessariamente numa perda de coleções, dado que, conforme veiculou a mídia na ocasião, “diferentemente de outros centros culturais tradicionais, o espaço não tem acervo tombado. É conhecido principalmente pela memória de suas exposições e material digital. [...] A maior parte do material de pesquisa e roteiros tem cópia digital e pode ser recuperada por meio de backups” [3].


Diante da necessidade de reconstrução e reestruturação do Museu, ocasionada pelo desastre, eventos como o seminário “Museu da Língua Portuguesa – Conquistas e Desafios”, realizado na Pinacoteca do Estado de São Paulo em maio de 2016, e o workshop “Arquiteturas e Técnicas Museográficas”, realizado na Fundação Armando Álvares Penteado, em outubro de 2016, vêm discutindo sistematicamente o caso, tanto do ponto de vista arquitetônico, quanto em termos de reestruturação museológica. Nesse sentido, a questão que se coloca neste estudo – a investigação sobre o conceito de “fato museal” no Museu da Língua Portuguesa – constitui uma questão preliminar e fundamental para se pensar nas próprias premissas institucionais, arquitetônicas e colecionistas relativas à sua estruturação.

 

O objeto museológico e os princípios de formação institucional

 

A questão da materialidade (ou não) do acervo pode ser considerada um dos principais desafios no que se refere à musealização do patrimônio imaterial, conforme demonstra o caso do Museu da Língua Portuguesa. Em seu próprio website institucional, o Museu afirmava que “seu acervo, nosso idioma, é um patrimônio imaterial, logo não pode ser guardado numa redoma de vidro e, assim, exposto ao público”. (www.museudalinguaportuguesa.org.br, acesso em 21/09/14). Portanto, a estruturação do Museu partiu da coleta de um acervo de referências relacionadas ao tema da língua, trabalhado por meio de recursos expográficos tecnológicos, de modo a atingir os principais objetivos enunciados para a instituição, transcritos a seguir:


Mostrar a língua como elemento fundamental e fundador da nossa cultura; celebrar e valorizar a Língua Portuguesa, apresentando suas origens, história e influências sofridas; aproximar o cidadão usuário de seu idioma, mostrando que ele é o verdadeiro “proprietário” e agente modificador da Língua Portuguesa; valorizar a diversidade da Cultura Brasileira; favorecer o intercâmbio entre os diversos países de Língua Portuguesa; promover cursos, palestras e seminários sobre a Língua Portuguesa e temas pertinentes; realizar exposições temporárias sobre temas relacionadas à Língua Portuguesa e suas diversas áreas de influência. (www.museudalinguaportuguesa.org.br, acesso em 26/10/16).


O Museu, portanto, estrutura-se em torno de um banco de dados organizado com base em pesquisas, referências, vídeos, entrevistas, depoimentos e outros materiais relacionados à memória da língua portuguesa. Em linhas gerais, pode-se dizer que “o funcionamento do Museu gira em torno de uma grande exposição complementada por ações educativas” (BITTENCOURT, 2005, 155). A “coleção de referências”, a qual poderia assumir o papel do “objeto” na estruturação do “fato museal” proposta por Waldisa Rússio, era trabalhada por meio de dispositivos expográficos, estabelecendo conexões e relações entre as informações coletadas. Como exemplo, pode-se citar o vídeo introdutório apresentado no auditório, com informações gerais sobre o processo de formação dos idiomas; as reproduções de documentos e imagens relacionadas à constituição da língua portuguesa falada no Brasil e os depoimentos de especialistas sobre o assunto, apresentados na “Linha do Tempo”.

Outros conteúdos, ainda, eram trabalhados por meio de dispositivos que sugeriam a interação com o público, a exemplo dos monitores presentes em totens, disponíveis para consulta; do “Mapa dos Falares”, que trabalhava diferenças de sotaques regionais presentes na língua falada no Brasil; o “Beco das Palavras”, mesa interativa que propunha uma brincadeira com a questão dos prefixos, radicais e sufixos presentes na formação das palavras.

Contudo, mesmo tentando se dissociar completamente da materialidade do acervo e das “redomas de vidro”, alimentando o museu por meio de conteúdos informativos e incentivando a participação do público em atividades interativas; havia algumas vitrines expondo objetos relacionados aos idiomas que influenciaram o desenvolvimento da língua portuguesa.

Tais objetos, porém, não pertenciam a nenhuma coleção, e apenas exerciam função alegórica e representativa das demais culturas – conforme afirmava o próprio texto que justificava a presença das referidas vitrines, transcrito a seguir:

Aqui, há objetos de diversas culturas integrantes da aventura que nos envolve: a língua portuguesa. São lanternas que possibilitam espiar culturas que formaram nosso modo de falar. Neste espaço, você não encontrará objetos típicos de museus: únicos, muito antigos e de valor monetário alto. Estão expostas peças cotidianas, coisas concretas feitas por falantes de mundos indígenas, africanos, europeus e asiáticos. Elas traduzem crenças, jogos, culinária e afeto. Estão vivas! Mais do que peças antigas, são pedaços da criatividade atual de muitos povos. (KARNAL, Leandro, cf. exibido no Museu da Língua Portuguesa).


O trecho acima apresentado demonstra o dilema entre a criação de um museu sem acervo material e as possíveis tentativas de se encontrar o “objeto museológico” de interesse preservacionista do museu, os quais poderiam ser as coleções de referências digitais. Parece claro que os objetos expostos nessas vitrines não conformam a coleção de um acervo museológico como entendido por Waldisa Rússio, possivelmente devido ao fato de que “a musealização se preocupa com a informação trazida pelos objetos em termos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade” (RÚSSIO, 1990, p. 205). Efetivamente, um sapato que ilustra a cultura espanhola, mas sobre o qual não se sabe a procedência, a origem, entre outras informações; não pode ser encarado nem como documento, nem como testemunho. Contudo, o objeto apresenta o caráter de fidelidade, uma vez que sua legenda deixa claro que não se trata de um objeto museológico.


Porém, é necessário enfatizar que o fato de esses objetos estarem colocados dentro de vitrines gera confusão para o observador menos atento; como pode se apreender da informação publicada pelo jornal Folha de São Paulo, ao afirmar que “uma pequena parcela do acervo era composta por objetos físicos” (PRADO, 2016). Se forem analisados a partir dos critérios estabelecidos pela teoria museológica, esses objetos não conformam um acervo museológico.

O foco no público: expografia e ações museológicas

O público apresenta importância relevante na estruturação do Museu da Língua Portuguesa, não só pela proposição de atividades interativas com o intuito de trabalhar a “coleção de referências” do Museu, mas também devido a uma série de recursos utilizados de modo a sugerir a imersão do visitante na proposta museológica. Pode-se elencar, por exemplo, o elevador panorâmico associado ao áudio que associava os termos “língua” e “palavra”, de autoria de Arnaldo Antunes; o espaço “Praça da Língua”, no qual foi proposta uma instalação multimídia com projeções de trechos de poesias, entre outros recursos; e a “Grande Galeria”, composta por projeções na grande empena horizontal que podiam ser observadas pelo público.

A ênfase no público se relaciona à proposta do museu de mostrar a língua portuguesa como elemento formador da cultura brasileira, aproximando o visitante de seu próprio idioma e evidenciando que a língua é “propriedade” de quem a usa (www.museudalinguaportuguesa.org.br, acessado em 21/09/14). Tal modo de aproximação se insere na discussão a respeito do papel do museu na sociedade contemporânea, encarando a preservação como um tema associado à valorização e à difusão de conhecimento (SARTINI, cf. ARAÚJO, 2006). Dessa maneira, a preservação do patrimônio está diretamente relacionada à busca de canais de diálogo com o público – cujo foco está direcionado aos jovens, aos quais é atribuída a responsabilidade pelo futuro e a quem se deve estimular o prazer e o fascínio pelo conhecimento. Assim, o estabelecimento de um discurso lúdico, didático e que facilite o aprendizado é um dos objetivos da instituição. Nesse sentido, o Museu promove cursos, palestras, seminários, apresentações gratuitas e realiza exposições temporárias sobre temas relacionados à língua e suas áreas de influência, abrindo vários canais de contato e aproximação do público.

Como pode se apreender, a ênfase no público – seja a partir do uso de recursos expográficos tecnológicos e interativos, ou pela proposição de atividades educativas – pode ser compreendida se considerarmos que “a grande tarefa do museu contemporâneo é, pois, a de permitir esta clara leitura de modo a aguçar e possibilitar a emergência, onde ela não existir, de uma consciência crítica, de tal sorte que a informação passada pelo museu facilite a ação transformadora do homem” (RÚSSIO, 1990, p. 204).


Há autores, tais como Andreas Huyssen (1995) e Rem Koolhaas (2013) que questionam se projetos elaborados com o objetivo de fazer do museu um espaço lúdico e voltado não só à cultura, mas também ao lazer, diversão e entretenimento; a partir da apresentação de conteúdos leves e relativamente superficiais, aproximando-se de um discurso que alude a parques temáticos e a outros espaços de entretenimento contemporâneos; podem efetivamente estimular a capacidade crítica do visitante.

O projeto arquitetônico e o espaço museal

O terceiro ponto trabalhado pela teoria de Waldisa Rússio é a questão do “cenário”, entendida como o espaço arquitetônico no qual se desenvolve o “fato museal”, indispensável para a ocorrência da relação museológica. O projeto arquitetônico para a implantação do Museu da Língua Portuguesa, em 2006, no edifício da Estação da Luz (1867), em São Paulo, foi desenvolvido por Pedro e Paulo Mendes da Rocha, e apresenta duas características contrastantes predominantes: a criação de espaços de imersão, contando com ambientações escuras nas quais as luzes dos dispositivos expográficos tecnológicos são valorizadas; e a criação de espaços que dialogam com o edifício histórico no qual o Museu foi implantado. Como exemplo, pode-se lembrar da sala “Palavras Cruzadas” e do corredor “O projeto de restauro”.

A diferença na concepção desses espaços foi influenciada pelo fato de o edifício da Estação da Luz ser tombado em nível estadual (Condephaat, 1982), municipal (Conpresp/DPH, 1991) e federal (Iphan, 1996). Considerou-se que a ala oeste do edifício deveria sofrer menos intervenções em relação à ala leste, a qual havia sido acometida por um incêndio em 1946 e não apresentava suas configurações originais. O resultado desse partido projetual gerou soluções interessantes, focando por um lado na expografia tecnológica interativa e, por outro, em espaços que expunham características do edifício encarado como acervo, como é o caso da referida sala “O projeto de restauro”.


O recente incêndio sofrido pelo Museu da Língua Portuguesa trouxe à tona outra questão interessante: a questão do edifício encarado como objeto museológico. Conforme veiculou a mídia em 2016, “a maior perda é arquitetônica. É um prédio importantíssimo, um patrimônio” (PRADO, 2016). Logo, se por um lado o acervo digital do Museu é passível de recuperação; por outro, a Estação da Luz encarada como “patrimônio”, considerada como “uma grande criação pelo seu valor histórico e artístico, depositária de numerosas estratificações do conhecimento e da memória coletiva” (KÜHL, 2008, 183), não pode ser recuperada na sua integralidade. Aspectos como documentalidade, testemunhalidade e fidelidade do edifício, associados segundo Waldisa Rússio ao “fato museal”, embora não estejam necessariamente presentes no acervo museológico, podem ser vislumbrados no edifício como testemunho da produção arquitetônica de sua época.

Considerações finais

A análise proposta para o Museu da Língua Portuguesa, considerando o conceito de “fato museal” sugerido por Waldisa Rússio, leva a algumas reflexões contundentes sobre as novas relações que se estabelecem no âmbito museológico, no caso da preservação do patrimônio imaterial. Em primeiro lugar, gostaria de pontuar que, embora o tripé objeto-homem-cenário seja de fato fundamental para o entendimento do “fato museal”; é necessário tecer algumas considerações sobre o uso desses conceitos na contemporaneidade.


É preciso ter em mente que o “objeto” museológico, no contexto contemporâneo, não necessariamente se refere a coleções materiais, mas também pode incorporar bancos de dados digitais que contemplem os aspectos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade. Essa condição é necessária sobretudo para o tratamento de temas imateriais como objeto museológico; e trabalhar esses bancos de dados digitais por meio da expografia tecnológica é uma possibilidade que reflete uma preocupação cada vez maior com o visitante, considerando as experiências expográficas e as ações educativas sugeridas.


O uso de recursos interativos e o próprio discurso enunciado pelo Museu da Língua Portuguesa de fato sugere que o conceito da língua como não seja dado a priori por um grupo de especialistas, mas sim conscientizar os visitantes de seu papel na formação do próprio patrimônio cultural, em constante processo de transformação. A relação do homem com o objeto patrimonial, sob essa ótica, pode ser considerada contemplada pelos museus – mesmo considerando as eventuais críticas que esse tipo de intervenção comumente recebe, sendo acusada de superficialismo, excesso de didatismo e de não estimular o aprofundamento crítico.


Por sua vez, o conceito de “cenário” alude a elementos que estejam entre o visitante e o objeto museológico e que interfiram na fruição do objeto – ou seja, o espaço no qual ocorre a experiência museológica. O termo “cenário”, justamente por remeter ao contexto da cenografia, pode ser interpretado do ponto de vista da simulação, do fantasioso e do irreal. Em certa medida, essa ideia alude ao processo de descontextualização que o objeto museológico sofre no processo de musealização. Contudo, acredito que a ideia proposta por Waldisa Rússio esteja mais próxima do conceito de “cenário” interpretado como espaço no qual ocorre o “fato museal”, ou seja, onde ocorre a relação entre o homem e o objeto museológico.


*
Pontuadas as considerações sobre os conceitos a partir dos quais se estrutura o “fato museal” pensado por Waldisa Rússio, acredito que outras considerações podem ser feitas a respeito do caso específico do Museu da Língua Portuguesa. A primeira delas pode ser pensada a partir da questão da materialidade (ou não) do objeto museológico. É possível pensar num banco de dados digital ocupando o conceito de “objeto” na teoria waldisiana? Há autores que desconsideram essa possibilidade, como Ulpiano Meneses. Conforme o trecho:


Ainda que possamos e devamos transcender os limites da corporalidade e da materialidade, somos corpo e matéria também e estamos mergulhados num universo de coisas físicas. Eliminar o acervo no horizonte do museu é comprometer uma das possibilidades mais eficazes de consciência e compreensão dessa dimensão visceral de nossas vidas. (MENESES, 2010, 5).


O autor enfatiza o papel da materialidade do objeto enquanto suporte físico dos conceitos de testemunhalidade, documentalidade e fidelidade que cabem ao objeto museológico. Seguindo essa linha de raciocínio, José Bittencourt (2005) aponta para a problemática da inversão de sentido que pode ser verificada em casos que tentam transformar temas em acervos – justamente pela perda da materialidade como suporte da instituição museal. De acordo com o autor, existe um perigo em se colocar questões como materialidade e corporalidade em segundo plano num museu, ainda mais associando-se à hipertrofia da função pedagógica e à atrofia da pesquisa desenvolvida pelas instituições.


Se considerarmos que é possível questionar se um banco de dados digital referente à memória da língua está apto a preencher esses requisitos; do ponto de vista da materialidade, o edifício da Estação da Luz e não o acervo museológico de fato oferecia esses elementos se considerado enquanto patrimônio. Nesse caso, o espaço assume o duplo caráter de “cenário” e de “objeto” museológico. Contudo, não há relações diretas que podem ser tecidas entre o tema da língua portuguesa e o edifício da Estação da Luz, sendo que por ocasião de obras de restauração do edifício em 2001 começaram a ser discutidas possíveis mudanças de uso do antigo edifício administrativo da Companhia de Transportes e Trens Metropolitanos (CPTM), a partir da qual cogitou-se transformar o edifício num museu.


Desta maneira, é possível se perceber que, do ponto de vista conceitual, a relação entre homem-objeto-cenário e os aspectos de documentalidade-testemunhalidade-fidelidade apresentam uma série de incongruências no caso da estruturação do Museu da Língua Portuguesa, sendo que o incêndio em 2015 apenas evidenciou essas incompatibilidades a partir da questão da existência ou não do acervo material e da preservação do edifício encarado como objeto de acervo. Pensá-las e repensá-las parece necessário e fundamental para se compreender o caráter das novas propostas de museus que despontam frente às questões que se apresentam na contemporaneidade.

Bibliografia

 

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